O apego ao cansaço

André Alves, do Float Vibes, analisa o fenômeno da geração burnout em um mergulho sobre a síndrome que domina discussões e mentes como nunca antes.

Por: André Alves (@reflektory)

burnout

Repita comigo: eu 👏 trabalho 👏 demais 👏. Você e muitos dos seus amigos, colegas e familiares. 

Um dos grandes paradoxos do início dos anos 2020 é habitarmos um mundo em que tantos estão sem trabalho enquanto muitos outros vivem no excesso de trabalho, cenário intensificado pela pandemia da COVID-19. Paralelamente, também avança uma epidemia silenciosa de depressão e ansiedade. O sujeito contemporâneo trabalha demais e deprime-se demais, uma condição que, na última década, ganhou um título bem popular: a Era do Burnout

Burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, foi descrita como distúrbio psíquico pelo psicólogo Herbert Freudenberger em 1974 e, em 2019, oficializada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como doença crônica. Desde a Revolução industrial, a humanidade tenta lidar com os problemas derivados do excesso de trabalho, mas o esgotamento atual leva o sujeito contemporâneo a novos patamares. De acordo com um estudo feito pela OMS e pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) com dados de 150 países, mais de 745 mil mortes no mundo foram causadas pelo burnout só em 2016. Como dizem os japoneses, karoshi, ou simplesmente "morrer de tanto trabalhar". Gradativamente, o esgotamento vai se tornando mais letal e mais estrutural. 

No Futuro do Trabalho, nos prometeram hologramas e reuniões em AR; mas o que nos deram foi o Zoom. E ninguém nos avisou que esse futuro seria tão cansativo. Não é a realidade de todos, mas uma cena frequente para muitos. Segundo o IBGE, o teletrabalho e o trabalho remoto são realidades para cerca de 3.8 milhões dos 100 milhões de trabalhadores brasileiros. Ou seja, esse tal futuro do trabalho que virou fadiga do Zoom não é um presente tão amplo, mas mesmo assim, parece um futuro estreito — ou um beco sem saída — para quem vive esse cenário.

The Burnout Society, traduzido como Sociedade do Cansaço, é o famoso ensaio de 2010 (!) do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han que parece ter nomeado o tempo em que vivemos. No texto, Han debate como a tecnologia multitarefa, "amigável" e a cultura de conveniência produzem muito sofrimento. É, por exemplo, a história da influenciadora exausta que não aguenta mais fazer conteúdo para um algoritmo que ninguém sabem ao certo como funciona e, convenhamos, não vem “entregando” o mesmo engajamento de outros tempos. Mas ela segue lá, empolgada e esforçada, meditando para espantar o cansaço da vida entre-posts. O sujeito contemporâneo vive em uma lógica de explorar a si mesmo 24/7, o que faz com que o estresse e a exaustão não sejam apenas experiências pessoais, mas também fenômenos sociais. 

O livro de Han tem mais de dez anos, mas parece que seguimos bem exaustos. De lá para cá, a obra do autor se ampliou muito e trouxe mais cor e textura para uma sociedade que dobra a aposta no desempenho e no ego. Na paralela, a cultura de massa foi incorporando o termo e transformando-o em um grande produto cultural, uma ideia amplamente debatida, altamente viralizada e até perversamente comercializada. Diferentes gradações de cansaço, exaustão, stress e colapsos mais graves foram achatados em um mesmo significante, como se tudo tivesse o mesmo significado. Resumindo, burnout virou um grande meme

Geração Burnout, cursos sobre esgotamento e até florais para o burnout. Milhares de artigos, livros, documentários foram produzidos nos últimos anos para alertar sobre o problema, ao mesmo tempo que o mercado rapidamente lançou tantos outros livros, cursos e produtos para “curar” a síndrome. Assim como muitos que afirmam sofrer de depressão, o sujeito contemporâneo exausto também se autodiagnostica burned out, se medica com o que o setor farmacêutico oferece ou mesmo com as duvidosas soluções que indústria do bem-estar vende. 

Cansado? Medite, cuide da pele, faça exercícios, cuide das plantas — são infinitos os rituais do chamado autocuidado que prometem diminuir o som e a fúria internas. E, claro, aumentar a produtividade. #lifehacks. As atividades de relaxamento também acabam sendo absorvidas pela lógica do consumo e do desempenho. No ritmo dos likes, EUs anabolizados acabam consumidos até pela performance dos cuidados com a exaustão. Afinal, ninguém pode deixar seu desempenho cair, mesmo que isso signifique a própria ruína psíquica.

De um ponto de vista mais analítico, o burnout vai se tornando uma dessas palavras gastas com predicados acumulados. Assim como a depressão, vira um significante que tenta dar conta de muitas formas de sofrimento e, como resultado, é desgastado por uma narrativa ampla demais. Em tempos em que se você não se sente num moedor de carne, é porque não está trabalhando direito, burnout pode ser uma forma de rotular inúmeras situações diferentes. Daí acaba sendo genérico demais para que se possa desenhar um tratamento específico. 

Ao mesmo tempo, se a única certeza do século XXI parece ser o cansaço, também paira no ar um sentimento de que ninguém aguenta mais. Afinal, até onde precisamos ser definidos pelo cansaço? Nesse sentido, a depressão como diagnóstico e também como produto cultural tem muito a nos ensinar. Como provoca o psicanalista Christian Dunker faz em seu último livro Uma Biografia da Depressão: “até que ponto os antidepressivos curam a depressão, e onde começamos a chamar de depressão tudo aquilo que é curado pelos antidepressivos?”. No saldo final, quando o esgotamento é um marcador da nossa identidade, parece que a gente não consegue mais entender nem quão cansados estamos de fato. Nesse ritmo, seguimos nos obrigando a estarmos cansados. 

Da mesma forma, podemos pensar sobre o burnout — quando o diagnóstico parece ser aplicável a tantas pessoas, não é só a psiquiatria que pode estar defasada, mas sim o contexto social. Como diz o filósofo Jiddu Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente”; e há muito tempo não ficávamos tão doentes. Seguimos diante do grande questionamento sobre que forma de vida é essa que cansa tanto. Talvez nós mereçamos mais do que viver esgotados. Mas esse tempo só vai começar quando pudermos finalmente desapegar de tanto cansaço. 

André Alves é escritor, psicanalista e pesquisador na @floatvibes, um hub de cultura, comportamento e estratégia.

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