Por trás dos Stories

Carol Figueiredo bate um papo sobre internet, pandemia e a saúde mental dos influenciadores das redes sociais em tempos de quarentena.

Já parou para perceber que, levando em conta o cenário pandêmico, atualmente vivemos na internet? E quando digo "vivemos", não digo somente com o significado de passar bastante tempo online. Nós existimos na internet porque, se pararmos pra pensar, está super difícil viver fora dela.  

Com isso, criaram-se novas relações pessoais, novas formas de interagir. Além do mais, relações pessoais que já existiam se adaptaram ao espaço virtual. O que é o caso dos influenciadores digitais e criadores de conteúdo, nossas celebridades da era web. A exposição, os jobs, os fãs, as cobranças, a fama, as vantagens e as desvantagens… tudo isso envolve a vida dessas novas personalidades que fazem presença no mundo atual. Você já parou pra pensar que a pandemia intensificou o trabalho e a influência deles? Pois é. Com isso, temos impactos significativos nessa relação entre consumidor de conteúdo e produtor. Vamos analisar? 

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A invenção de plataformas ou ambientes virtuais de fácil acesso para desenvolvimento e compartilhamento de conteúdo transformou o uso da internet. Os usuários passaram de passivos a ativos, tornando-se por vezes não só protagonistas, mas também produtores de conteúdo. No âmbito das redes sociais, os chamados influenciadores digitais, ou somente influencers, estão sempre expondo seus pensamentos por meio de vídeos, stories, fotos e outros formatos. Na grande maioria das vezes, mostram a vida de uma perspectiva positiva e feliz. Essas pessoas divulgam conteúdo para milhares de seguidores, principalmente no Instagram, rede social que mais cresceu na pandemia do COVID-19.

"Durante o pico da crise mundial, Facebook, Instagram e WhatsApp tiveram um crescimento de cerca de 40% no período de pandemia."
Fonte: Kantar, Março de 2020

Com esse aumento de heavy users, consequentemente tivemos um número notável de pessoas que se destacaram nas redes sociais. Isso porque precisávamos consumir conteúdos relevantes para nos entretermos durante o isolamento social. Influenciadores digitais ganharam de vez os holofotes, o que abriu grandes portas para relações profissionais. No entanto, como vimos durante toda a trajetória dos famosos, artistas e celebridades, por trás das câmeras existe um universo pessoal. Com os influenciadores não é diferente. 

"A pandemia fez com que o meu trabalho fosse importante para gerar contato entre empresas e pessoas, já que não havia contato físico."

Júlia Lira

Em conversa com Júlia Lira, criadora de conteúdo e influenciadora digital, podemos analisar esses dados e fatos de forma concreta. Júlia, que trabalha profissionalmente com redes sociais desde 2015, afirmou que a pandemia trouxe uma mudança significativa para a sua vida em todos os âmbitos: "De início, a pandemia trouxe um impacto negativo no meu trabalho. Estava em negociação com três marcas que eu desejava muito trabalhar, e o job não aconteceu por conta do COVID-19, e me vi perdida naquela situação. Mas, com o passar do tempo, percebi que o jogo virou. A pandemia fez com que o meu trabalho fosse importante para gerar contato entre empresas e pessoas, já que não havia contato físico. O virtual se tornou uma coisa muito importante". 

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Nesse cenário de exposição e cobrança - tanto pessoal quanto externa, dos seguidores e possíveis parceiros - o influenciador precisa ter muita maturidade e apoio para não se deixar abalar. Em um estudo feito pelo Google em 2020, influenciadores foram analisados por seu conteúdo e categorizados por: depressão; ansiedade; transtornos de imagem; e síndrome de burnout. Dentre as temáticas, a mais comum foi depressão (83%), seguida por ansiedade (33%). Os principais motivos apontados foram a cobrança excessiva por produtividade, as longas jornadas de trabalho, a não separação dos momentos de trabalho e lazer, a insegurança quanto a aceitação do conteúdo produzido e os comentários depreciativos.

"Trabalhar com imagem é bem complicado", diz Júlia. "Pelo meu trabalho exigir tanto de minha imagem e também que eu sempre aparente estar bem, acaba que isso me gera uma pressão enorme. Muitas vezes estou em meio a uma crise de ansiedade, e ela piora porque começo a pensar no meu Instagram, meu trabalho, meus seguidores. Essa é a minha maior dificuldade: ter que usar a minha imagem e aparecer bem mesmo quando eu não estou".

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"Eu trabalho 100% sozinha", continua. "Ainda não tenho condições de ter uma equipe para me ajudar, o que acaba sendo muita carga para uma pessoa só. Fora que eu ainda preciso resolver coisas pessoais, como casa, faculdade, saudade da família etc. Tudo que acontece acaba tendo um impacto maior em mim, e com o aumento da demanda na pandemia, eu senti essa cobrança intensificada. Me sinto cansada principalmente por ser um trabalho full time".

Esse tema está sendo bastante pautado pelos influenciadores, com intuito de conscientizar o seu público sobre as questões que eles passam por trás das câmeras. Um exemplo é o tipo de conteúdo que a creator Ellora Haone faz, expondo suas sensibilidades provindas por conta da internet, e também as que existem muito antes de virar uma figura pública.

A forma como consumimos o conteúdo disponível na internet impacta não só a nossa vida, mas também a das pessoas que estão ali, criando. Se você está aqui e é um criador ou influenciador, Júlia dá um conselho: "Tenha pessoas que possam te ajudar a executar todas as suas tarefas. Amigos, colegas, familiares. Procure também fazer terapia, é muito importante ter alguém para te apoiar nos seus processos. Uma rede de apoio de amigos do mesmo ramo também ajuda". 

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Um fato é que influencer/creator ou não, todos nós somos consumidores do conteúdo disponível online. Não tem como a gente ter noção do que acontece de fato na vida de alguém apenas pelas redes sociais. Assim como temos problemas pessoais, o nosso criador e/ou influenciador favorito também tem, e infelizmente ele não pode demonstrar isso o tempo inteiro. Para a internet se tornar um lugar mais agradável para ambos os lados, precisamos ter empatia. Esse sentimento pode ser demonstrado com: mais cuidado ao mandar mensagens que possam ser ofensivas; respeitar o tempo do influenciador entendendo que ele não é uma máquina; e principalmente se colocando no lugar da pessoa, e sempre refletindo: "eu gostaria de ser tratado(a) dessa forma?". Assim, praticando o bem, recebemos o bem de volta.

E aí, vamos agora deixar um comentário positivo no perfil do nosso influenciador favorito? :)

vamos conversar?

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