Turnê Sallve: São Paulo

Nossa Turnê Sallve se encerra com uma conversa incrível sobre pele, autocuidado e amor próprio.

O coração chega a ficar apertado quando pensamos que essa foi a última parada da nossa Turnê Sallve. Foram oito meses aterrissando virtualmente em 27 estados, encerrando aqui mesmo, em São Paulo, em uma conversa animada que bateu quase três horas de duração.

As embaixadoras da nossa parada em São Paulo foram Juliana Andrade, "conhecida por dançar nas festas e MC da Batekoo, maior festa LGBTQ+ preta do país", como ela mesma se apresenta, e Magô Tonhon, consultora em diversidade e educadora de beleza. Com elas, os convidados do papo foram a Bruli, a Cynthia e o Felipe.

Conhecendo a pele no susto

Juliana abriu a conversa contando que começou a cuidar da pele faz pouco tempo: "Deus me abençoou com uma pele que nunca questionei muito", ela brinca. Entre os primeiros cuidados que aprendeu na vida está beber água - conselho precioso de sua mãe e suas tias -, comer bem e hidratar e esfoliar a pele: "Todas elas esfoliam a pele com açúcar desde que me conheço por gente, mas esse sempre foi o máximo de cuidado que tive com a minha pele. Isso e depois argila".

"Minha palavra de ordem é sobre respeito, essa é minha palavra de honra". 

Juliana Andrade (@bondedajujuzl)

Foi no ano passado, após uma alergia forte que teve durante o carnaval, que ela viu sua pele se transformar: "Foi a primeira vez que fui atrás de uma dermatologista e comprei produtos especificos para a minha pele, no susto. Foi assim que comecei a criar uma rotina para a minha pele, a dar atenção à minha pele. Eu sempre fui do time gratiluz, até dormir de maquiagem eu dormia", ela segue, com sua risada que anima qualquer ligação em vídeo.

Juju, que detestava usar protetor solar, hoje afirma que esse é seu produto favorito ("é que eu usava errado!", justifica), e que o que menos gosta é procurar um cremão para o rosto: "A maioria não dá certo, e sempre leva tempo para eu descobrir isso. Por outro lado, amo esfoliar minha pele desde pequena. Minha mãe fazia esfoliação nas minhas costas massageando, e é uma coisa que até hoje fica para mim como uma sensação muito gostosa", diz a fã de uma pele bem viçosa, e que deixa a lição: "Gosto da minha pele. Sempre fui de usar maquiagem mas gosto da minha pele como ela é também, natural. Ao mesmo tempo que gosto de maquiagem, gosto de usar pouca base, gosto da textura da minha pele, então usar tudo que deixa minha pele mais bonita está valendo".

O fim do desejo pela pele perfeita

Bruli, de 29 anos anos, engata o bate-papo bem à vontade: "Quando me sinto num ambiente seguro gosto de falar que sou uma mulher trans", se apresenta, contando que com a pandemia ela descobriu o tarô. "Para mim, a Sallve me ensina o autocuidado", ela conta, definindo sua relação com a gente como um divisor de águas: "Antes de conhecer a Sallve eu queria ter a pele perfeita, sem poros, sabe? A Sallve melhorou muito a minha pele mas não só nesse quesito de fora para dentro, mas também de dentro para fora. Eu sou cadelinha mesmo!", se autodeclara.

Bruli contou que tinha a pele oleosa na adolescência, com muita espinha, mas que hoje ela se transformou em uma pele mista, oleosa na zona T. "Sempre gostei de skincare. Sempre pedia um creminho para a minha mãe, um sabonete facial, um esfoliante... Mas gostava de um espaço inverso: eu tinha ódio da espinha, esfregava, arrancava, lavava o rosto cinco vezes por dia, e isso não funciona, a gente sabe".

Nos últimos três ou quatro anos, Bruli conta, ela vem aprendendo cada vez mais sobre sua pele - seja com cosméticos naturais, óleos vegetais ou sua relação com a Sallve: "Minha jornada com a pele é bem recente".

O Limpador Facial e o Tônico Renovador têm sido tudo na minha vida, eu passo em tudo - inclusive no bumbum, pois fico muito sentada e acabo com foliculite. Também passo o Tônico Renovador no calcanhar e no cotovelo"

Bruli (@criaturadeconteudo)

A diversidade abrindo os olhos para a própria pele - e a pele do coletivo

Magô Tonhon, vastamente conhecida no Instagram como @mulhertrans, conta que todo o seu trabalho com com consultoria e diversidade abriu muito seus olhos "para o que realmente importa quando a gente mobiliza esse sentido de beleza e de cuidados. Para Magô, pele é um assunto que a mobiliza profundamente: "Na minha experiência de mulher trans, eu tive que reinventar a minha pele. E essa minha experiência é literalmente resultado do esforço de tornar minha pele minimamente habitável para mim em primeiro lugar, ao invés dessa coisa idealizada da geração de ódio que somos induzidos a sentir pela nossa pele", ela conta, poderando: "Mas também abraçando o paradoxo de que a pele que a gente habita tem dias que é a mais insuportavel do planeta. Levo em conta inclusive essas relações que a gente tem, até mesmo aquilo que as pessoas poderiam colocar como autossabotagem como ser tabagista em 2021, ter então uma vida que não é reflexo da norma - essa norma que faz com que a gente olhe para nossa pele e classifique ela como feia", afirma. "Na verdade nem é a gente que classifica assim, mas a gente recebeu essa classificação de que nossa pele não é perfeita".

Quando a gente está falando de ideais de beleza, a gente também está falando de saúde pública.

Magô Tonhon (@mulhertrans)

Magô conta que teve que rever sua pele quando fez sua transição de gênero: "A minha relação com ela se modificou de modo que, quando eu estava naquela projeto de menino, isso não parecia ser uma questao para a coletividade. E quando então passo a me reivindicar Magô, depois de um processo longo que não daria para capturar e apontar um dia específico, eu inauguro uma nova era no meu próprio lar, que é essa minha nova pele", relembra Magô. "Passei a olhar para ela e entender que essa é minha pele. Precisei rever minha relação com meu corpo gordo também, e enquanto mulher gorda eu passei a criar essa rotina".

Magô diz que há seis anos lida com sua pele de maneira bastante diferente e realista: "Tem dias que não passo nada, só raiva", brinca, arrancando risadas de todos. Ela gosta de misturar produtos, adora produtos para os lábios hidratantes, mas quer ver seus olhinhos brilharem? É só falar de ácidos para a pele: "Gosto de ácidos por ter sofrido muito por espinha quando meu corpo produzia testosterona adoidado. Vivi uma adolescência com bastante espinhas, tenho bastante cicatriz de acne, alguns cistos que inflamam...", descreve. "Mas gosto muito do viço que alcancei com a minha pele, o aspecto dela. Eu me esforço para rever minha pele sempre. Tem dias que a gente não quer se olhar no espelho e tento respeitar isso, mas estou sempre voltando, é um processo".

Na sua rotina de cuidados com a pele tem sempre lugar para um sabonete de limpeza mais gentil ("Odeio aqueles que deixam a pele repuxando, parece que tirou todo o seu passado"). Ela, aliás, afirma que o Limpador Facial da Sallve é perfeito para fazer o xuxu, que são os pelos da barba que ainda crescem durante o procedimento de laser para retirá-los: "Foi uma descoberta incrível. O uso da lâmina e da espuma de barbear deixavam minha pele híper sensibilizada, aí acabava que eu tinha que ficar espirrando uma água pra acalmar a pele. Com o Limpador Facial descobri que podia passar e depois minha pele não ficava irritada, além de dar uma sensação de hidratação". Ainda em sua bancada? O Bálsamo Demaquilante ("rapidíssimo para tirar a maquiagem") e o Tônico Renovador: "Ele é puro amor, é vida! Eu passo até no meio das pernas, onde a pele pode manchar. Tenho muita acne nessa região, então estou amando, depois de tomar banho, me cuidar. Tem a ver com me sentir muito limpa e cheirosa".

Passo ácidos nos braços, nas axilas e agora na virilha. Segura amor, que ela agora vai passar ácido até no passado dela.

Magô Tonhon (@mulhertrans)

O Antioxidante Hidratante é seu escolhido para preparar a pele antes da base, conta Magô, revelando mais um truque de maquiadora experiente: passar um cremão bem de levinho, carimbando a pele logo abaixo dos olhos. "Mas é muito pouco mesmo, só carimbando a pele para receber bem o corretivo. Eu gosto até de vir com o cremão por cima do corretivo, porque ele reidrata e eu consigo vir só com um pouquinho de produto, e posso até selar por cima".

Sobre habitar a própria pele

"São Paulo é um pouco disso. É feita de pluralidade, nacionalidade e regiões", diz Cynthia, ainda no tópico de diversidade - sendo ela uma paraense que habita na cidade há alguns anos. A artista e tatuadora conta que começou a cuidar da pele em duas etapas: a primeira aos 13 anos, quando se mudou para São Paulo e lidou "direratemente com a questão estética que as mulheres sofrem": "Achava que cuidar da pele estava intimamente ligado à beleza e femininidade, o que não é uma verdade absoluta".

O segundo momento foi quando se tornou mãe da Nina, de cinco anos, e surgiram as sardas: "A Nina começou a querer participar do processo de sair do banho e passar um creme, então aquilo virou o nosso momento. Comecei a procurar mais coisas para essa rotina pq acredito que o exemplo que posso dar pra ela é o mais importante possível".

Ela conta que sempre cuidou da pele para minimizar os efeitos colaterais que o uso constante de maquiagem traz, mas hoje ela jura que se cuida melhor: "Não sou irretocável no meu cuidado com a pele, mas sempre procuro dar o exemplo para a minha filha", conta ela, que tem a pele mista e não gosta de produtos que pedem muitos passos e ainda está em busca do protetor solar perfeito: "É difícil achar um que não fique craquelado", afirma.

"Continuo com minhas sardas mas agora me aceito mais. Elas não vao sair mas tudo bem, é sobre a relação que você tem com a sua pele. Você precisa estar ali, habitar sua pele e ser você mesmo."

Cynthia (@cyth_ramos)

O skincare como redescoberta

Felipe, o @beautismos, trabalha hoje com marketing digital e mídias sociais para a área de beleza: "Tenho um perfil de skincare há quase dois anos, e a Sallve faz parte da minha história porque uma das primeiras resenhas que fiz foi a do Antioxidante Hidratante. Todo o universo Sallve sempre foi muito atrativo pra mim, pois são diversas narrativas para falar sobre o autocuidado.

Foi a acne que fez com que Felipe cuidasse mais da sua pele, mas foi só quando teve uma crise de burnout, em 2015, que ele começou a agir: "Foi uma fase terrível, e todo e estresse desencadearam uma crise de acne severa", ele relembra. "Tive que ir num dermatologista e em um endocrinologista". Felipe começou então um tratamento bem abrasivo com produtos para a acne, mas conta que o período foi difícil, e só melhorou com o tempo. O tratamento com uma rotina de exercícios reequilibrou seus exames e a rotina de skincare entrou na conta como uma forma de se redescobrir: "Esses momentos meu comigo mesmo eram insuportáveis. Eu tinha que ver filme para poder acalmar e relaxar, e o skincare me ajudou com essa questão de me conhecer, junto com a terapia e exercício fisico".

Felipe conta que com o tempo também ele começou a construir sua rotina, pesquisar ativos, e finalmente encontrou a dermatologista que casou com sua jornada da pele: "Hoje sou mais feliz com a minha pele, minha autoestima, tudo está alinhado, inclusive os planetas, e isso tudo ta refletido na minha pele. A acne é bem menos recorrente hoje em dia, e eu realmente consigo me olhar no espelho e gostar do que vejo, ficar na minha propria companhia sem surtar - e o skincare participou de todo esse processo".

A arquitetura da beleza

Quem encerra essa última edição da Turnê Sallve é Magô, com um paralelo tão interessante: "Tenho graduação em arquitetura e urbanismo, mas hoje em dia brinco que sou arquiteta da beleza. Quando você pensa por exemplo em uma casa, ela tem algumas funções a cumprir, mas nem sempre a demanda vem antes da realização. Além disso, a alteração que você vai fazer na paisagem e na natureza tem que seguir alguns critérios. Para construir beleza eu acredito que é assim também. Especialmente algumas belezas que se julgam neutras, como se não tivessem carregadas de significados, de supremacia branca, de supremacia magra, de cisgeneridade - que é irmã da branquitude - enquanto um regime que funciona pra si mesmo", analisa.

"Minha relação com a beleza tem a ver com a minha própria carne: eu faço com paixão, foi isso que me manteve viva inclusive", afirma. "Essa pele perfeita existe enquanto mercadoria, e algo que vai colocar sobre a gente desgosto, falta de generosidade - em olhar a própria pele e entender as marcas que a vida deixa. Porque a vida é isso, sobretudo no Brasil, e ainda mais para algumas pessoas. Não é possível você não ter uma marca na sua pele. Se você não tem, que história sua pele conta?"

Perfeita, Magô.

vamos conversar?

mais do blog

buscar

sua sacola

  • Loading