5 coisas que aprendi com minha transição capilar - por Luane Dias

Luane Dias revela como o racismo prejudicou sua relação com seu cabelo e o que ela aprendeu com sua transição capilar: é inspiração pura!

Foto: Instagram/ Luane Dias

No último dia 05/06, Luane Dias apareceu no nosso IGTV para falar sobre o impacto que o racismo teve em sua vida e como ela conseguiu converter tudo isso. Seu depoimento - incrível, claro - faz referência a um preconceito que tantas crianças e negros sofrem: o estigma de seus cabelos afro.

A história de Luane, porém, é de superação, aceitação, amor próprio e, acima de tudo isso, descoberta: não só do mundo, mas dela mesma: "A primeira vez que eu sofri racismo tinha oito anos e não sabia o que era isso. Sempre tive problema de vista e o cabelo crespo tipo quatro, volumoso, daquele jeito que acho super lindo", relembra Luane.

Ela conta que precisava se sentar na primeira fila de sua sala de aula por conta de seu problema de visão, mas por causa de seu cabelo, uma das vezes em que ela tentou garantir um lugar mais perto do quadro negro foi repreendida por sua professora: "Ela falou que eu não podia sentar na frente porque meu cabelo parecia uma árvore e ia tampar a visão de todos os meus colegas." Luane, claro, ficou envergonhada e perdeu a vontade de voltar para a escola, sem revelar o motivo.

Com o tempo, Luane finalmente se abriu para sua mãe, que foi na escola, mas mesmo assim a professora continuou insistindo em não deixá-la sentar na frente. Foi aí que sua mãe passou a apelar para tratamentos químicos em seus fios, que fizeram com que Luane sofresse muito: "Meu couro cabeludo era muito sensível, eu era apenas uma criança. Foi aí que comecei a odiar muito meu cabelo. Passei minha vida inteira escrava da química pois não podia cogitar cultivar meu cabelo natural. Na minha cabeça, meu cabelo volumoso era um problema".

Como Luane mudou esse raciocínio? Ali em torno de 2016, quando o boom da transição capilar ganhou força total na internet - na época, essa chegou a ser uma das buscas mais feita no Google. "Vi meninas crespas e cacheadas tendo muito espaço e muita voz, e isso despertou em mim a vontade de conhecer meu cabelo. Eu queria conhecê-lo, queria saber como ele é, se eu ia saber cuidar, como seria o processo de hidratação... Comecei a me interessar por tudo isso e tomei a decisão: vou cortar meu cabelo e passar pela minha transição".

Luane, porém, não recebeu o apoio de ninguém: "Todo mundo me dizia para não cortar meu cabelo, porque ele era grande e tal. Então decidi cortar em casa. Cortei tudo após sofrer um corte químico, então tinha sido mais um problema no meu cabelo, que vinha arrastando minha vida inteira".

Luane passou por todas as fases de sua transição capilar e relembra dessa fase com orgulho: "Foi lindo descobrir meu cabelo, ver que ele é lindo, o quanto ele é maravilhoso e quanto tempo eu perdi aprisionada naquele episódio de racismo da minha infância".

Em seu depoimento ao nosso IGTV, Luane afirma que já sofreu racismo diversas vezes ao longo de sua vida: "Ser negro é resistir. Sou feliz por ter resistido. Infelizmente nem todos têm essa oportunidade de resistir. Hoje tenho um irmão de quatro anos e trabalho a autoestima dele para que ele resista, para que ele saiba combater isso desde pequeno. Pode parecer que ele é muito novo, mas quanto mais cedo estimularmos nossas crianças a se olharem no espelho e se amarem, mais importante é".

Luane cita ainda como fator que dificultou sua aceitação de seu cabelo o fato de não ter, na época, nenhuma referência em sua casa: "Somos uma família de negros, e todas as mulheres da minha casa alisavam o cabelo. A representatividade é muito importante". Ela recebe com frequência diversas mensagens de meninas que sofrem com seus cabelos afro, mas deixa seu recado: "Vamos de mãos dadas lutar contra o racismo. É uma obrigação nossa. Já passou da hora de combatermos isso. Juntos somos mais fortes".

De toda essa jornada tão rica e transformadora, Luane lista cinco aprendizados que vai levar para sua vida inteira:

1- "Aprendi a me amar em primeiro lugar, o importante é eu estar feliz com que vejo no espelho".

2- "Aprendi que meu cabelo faz parte de quem eu sou e que ele é perfeito com volumão, frizz etc".

3- "Aprendi que sou um símbolo de resistência e que meu cabelo é uma forma de resistir".

4- "Aprendi que devemos incentivar pessoas a terem coragem de se libertarem de qualquer opressão imposta pela sociedade".

5- "Finalmente, aprendi principalmente que devemos conversar em casa com nossas crianças pra que elas se aceitem e se amem do jeitinho que são. Talvez se essa conversa tivesse acontecido na minha casa eu não teria passado uma vida toda odiando meu cabelo".

É musa: sim ou com certeza?

Abaixo, você assiste o IGTV da Luane para a Sallve. É inspiração absoluta. <3

vamos conversar?

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