Brincar de cirurgia plástica? O Instagram diz não

Instagram anuncia que vai deletar de sua rede filtros que simulam e glamurizam cirurgias plásticas. Exagero ou necessário? Especialistas comentam.

Instagram Daniel Mooney/ Reprodução

Se você ainda não esbarrou com um daqueles filtros que simulam cirurgias plásticas no Instagram, sorte a sua: eles são horrendos. Não sabe nem do que se trata? A gente explica: muito além dos filtros de gatinho, cachorrinho e outras gracinhas que já vem como default no Instagram, a empresa que desenvolve e aprova estes efeitos, a Spark AR Creators, lançou filtros que glamurizam cirurgias plásticas.

Instagram/ Reprodução

Tem o filtro que simula marcações de cirurgia no seu rosto inteiro (além de hematomas), tem o que imediatamente simula cirurgia de aumento exagerado das bochechas e lábios e facelifts (como uma cirurgia daquelas que deu errado), o tal do Bad Botox (que já foi usado mais de 100 milhões de vezes, pasme)... 

Quem brincou com os efeitos de realidade aumentada brincou, quem não brincou... Tem pouco tempo para isso, caso queira mesmo. A Spark AR Creators soltou um comunicado no Facebook essa semana anunciando que vai retirar do aplicativo todos os filtros associados com cirurgias plásticas, além de adiar a aprovação de filtros do gênero que estavam na fila para entrar no ar. "Queremos que os efeitos Spark AR sejam uma experiência positiva", escreveu a empresa, afirmando que quer contribuir para o bem estar dos usuários da rede.

 

É claro que os filtros têm um lado de ironia, de exagero justamente para levantar a questão do absurdo. Mas há outro lado bem perigoso: para muitos médicos que já se pronunciaram sobre os efeitos, o que se vê é uma glamurização e trivialização de procedimentos extremamente invasivos. 

Em uma conversa sobre o assunto aqui mesmo na Sallve, a Dra. Ana Paula Carvalho, médica psiquiatra especializada em Lifestyle Medicine pelo ILSM e pela Harvard Medical School, afirmou: "Os diagnósticos de depressão e ansiedade vem se tornando cada vez mais comuns por decorrência do fenômeno das redes sociais e das selfies", citando dismorfia corporal como um dos piores efeitos destas alterações em fotos na nossa cabeça. "A comparação é inerente ao ser humano, mas a partir do momento em que nossa comparação passa a ser com algo que não é verdadeiro ou possível no mundo real, isso traz uma série de problemas, inclusive de autoestima, procuram tratamentos estéticos buscando um padrão que não existe, e podem se colocar em risco, tomando medicações sem qualquer controle", completou.

A dermatologista Dra. Carla Vidal também sente os efeitos desse filtro no psicológico de suas pacientes em sua clínica: "Há pacientes que tiram uma foto com filtro, trazem para o consultório e dizem que querem ter uma pele igual àquela. Mas aquela foto não é real", contou.

"A gente chegou a um nível tão alto de evolução tecnológica que sinto que as pessoas querem parecer clones delas mesmas. Ninguém se permite ter um pelo, uma acne, ser gente, trabalhar com a imperfeição, e isso me choca bastante", comentou a maquiadora Laura Peres.

Pode parecer brincadeira, mas é impossível ignorar os efeitos negativos que essas zoeiras da internet vem causando na cabeça de todo mundo online. E o Instagram vem sentindo a pressão: ele já anunciou o fim da contagem visível dos likes, uma política para tentar controlar o bullying, a proibição de posts que promovem dietas milagrosas e agora essa revisão nos filtros.

Mas a pergunta é: mesmo com tudo isso, vocês vem sentindo alguma mudança na atmosfera da rede? Vale relembrar um comentário da Shirley Manson sobre a rede social, em 2017: “Não somos aquelas famílias chapadas. Temos elementos contraditórios em nossas personalidades, e há tanta dimensão no que faz de nós interessantes. Não somos aquelas versões de histórias em quadrinhos vazias que são postadas nas mídias sociais. Somos muito mais complexos e difíceis de sermos compreendidos.”

É bom se divertir? É ótimo. Mas quando uma diversão ilusória vira padrão, talvez possa ser tarde demais para muitos. 

vamos conversar?