Nem isso, nem aquilo: a área cinza de Arca - por Jorge Wakabara

Em uma participacão especial no nosso blog, Jorge Wakabara apresenta a cantora e produtora musical cujas imagens transcendem conceitos clássicos de beleza.

Se o não-binarismo tem uma encarnação pop, ela é Arca. A venezuelana Alejandra Ghersi sempre esteve atrelada ao gênero fluido em suas apresentações, na imagem que gosta de cultivar e no seu discurso. Foi (e é) um processo – hoje ela se assume mulher trans e prefere o pronome "ela" mantendo a visão sobre seu gênero como não-binária. E uma das suas paixões, dá para perceber, é a moda: ela usa itens a favor de sua arte quebrando limites, repropondo simbolismos e buscando uma beleza diferente, não-usual, queer.

Atualmente estabelecida em Barcelona, a cantora e produtora musical que lançou seu primeiro EP em 2012 faz um som eletrônico cheio de experimentação. Ela já tem quatro álbuns lançados – o quarto, "KiCK i", saiu no fim de junho de 2020. Na primeira música dele, Arca faz quase que um manifesto: a faixa "Nonbinary" diz coisas como "Yeah I’ve been lucky / And I’ve been unlucky / It’s both" ("sim, eu tenho sido sortuda e tenho sido azarada, são as duas coisas") e "I can be sexy or I could be sad / Act bad just to be sweet / What a treat / It is to be / Nonbinary" ("posso ser sexy ou poderia ser triste, agir de maneira má só para ser doce, que delícia que é ser não-binária", tudo em tradução livre).

O clipe, por sua vez, é uma sequência maravilhosa de "quem dá mais referências" nas construções de imagens fortes, como um editorial fotográfico em movimento: São Sebastião, objetos cortantes, transhumanismo, gravidez, concha, fogo.

Arca não está só na sua busca de imagens que transcendam conceitos clássicos da beleza. Mulheres cis que receberam sua produção musical também exploram essas ramificações, como se trabalhar com Arca exigisse um pacote completo: Björk (em "Vulnicura" e "Utopia", com maquiagens que trazem novas texturas e elementos para o rosto humano), FKA Twigs (em LP1 e EP2, com o clipe de "Water Me" acentuando os traços da cantora em movimentos quase mecânicos, lembrando filtros de Snapchat) e Kelela (em "Hallucinogen", no qual a artista aparece com a pele cheia de brilho azul na capa).

Rosalía é outra que está na lista: ela participa do recém-lançado KiCk i, mas a gente ainda não sabe se ela vai levar a artista para a sua própria discografia.

Ao desafiar paradigmas visuais, Arca desponta como uma das artistas mais originais hoje. É um convite para a experimentação no seu ouvido e na sua própria pele, apesar dela nem ser tão ousada assim em matéria de maquiagem – nessa a Björk na era "Utopia" ganha com imagens inventadas pela drag queen Hungry, outro nome para seguir e se deslumbrar. Na dúvida, se inspire em todas!

vamos conversar?

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