O efeito filtro e os padrões de beleza das redes sociais

Como o vício em redes sociais e filtros estão afetando uma nova geração, cada vez mais depressiva e ansiosa, e que busca tratamentos estéticos inalcançáveis.

Foto: Ionut Coman

No Instagram, a gente sabe, tudo é perfeito. As viagens são cenários incríveis, as comidas deliciosas, as roupas perfeitamente coordenadas. E a pele? No mundo mágico do Instagram não há poros, manchinhas, vermelhidão, cicatrizes de acne, nem queixo duplo ou rostinho redondo. É tão sedutor baixar apps que transformam sua vida em um videoclipe e seu rosto em capa de disco que tornou-se corriqueiro ter aplicativos como o Facetune no celular. Fotos #semfiltro? Só se for de um pôr do sol beeeem fotogênico ou uma superlua. Com isso, cada vez mais pessoas não se reconhecem mais nem no espelho, quando levantam seus olhos das telas do celular. Os padrões de beleza que até outro dia eram apenas inatingíveis, hoje são ficção de rede social. E como fica a nossa relação com a pele no meio disso tudo?

"Eu sinto que as pessoas querem congelar o filtro do Snapchat", diz a maquiadora Laura Peres. "Todo mundo quer ser como a Kendall Jenner, que parece estar 24 horas sob um filtro de Snapchat. Eu fico um pouco apavorada, sabe? A gente chegou a um nível tão alto de evolução tecnológica que sinto que as pessoas querem parecer clones delas mesmas. Ninguém se permite ter um pelo, uma acne, ser gente, trabalhar com a imperfeição, e isso me choca bastante".

Esse costume (assustador, diga-se de passagem) de viver a vida através de um filtro e da ilusão de um feed de fotos ou sequência de Stories, em que a festa nunca termina, já tem efeitos palpáveis em toda uma nova geração. "Os diagnósticos de depressão e ansiedade vem se tornando cada vez mais comuns por decorrência do fenômeno das redes sociais e das selfies", diz a Dra. Ana Paula Carvalho, médica psiquiatra especializada em Lifestyle Medicine pelo ILSM e pela Harvard Medical School. "Para se ter uma ideia, uma curtida na rede social libera os mesmos neurotransmissores [para alguém viciado em internet] que são liberados no uso de drogas", explica a psiquiatra, citando, como tratamento para estes casos, aplicativos de controle de tempo nas redes sociais e o tão falado detox digital.

Entre os efeitos negativos do vício nas redes sociais, a psiquiatra lista dismorfia corporal (os casos, segundo ela, praticamente dobraram em decorrência das pressões estéticas da internet), depressão, ansiedade e transtornos alimentares, todos decorrentes de padrões inalcançáveis. "A comparação é algo inerente ao ser humano. Isso não necessariamente precisa ser ruim, pois isso muitas vezes ajuda a orientar inclusive nossas preferências, ou o que faz sentido para nós. Mas a partir do sentido que nossa comparação passa a ser com algo que não é verdadeiro ou possível no mundo real, isso traz uma série de problemas, inclusive de autoestima, procuram tratamentos estéticos buscando um padrão que não existe, e podem se colocar em risco, tomando medicações sem qualquer controle", explica.

A dermatologista Dra. Carla Vidal já sente todos os efeitos da busca incessante por um padrão de beleza pronto para o Instagram em seu consultório: "Há pacientes que tiram uma foto com filtro, trazem para o consultório e dizem que querem ter uma pele igual àquela. Mas aquela foto não é real". Entre os procedimentos cada vez mais procurados por pacientes que querem estar perfeitas para a selfie do Instagram, a Dra. Carla Vidal aponta tratamentos para a diminuição dos poros: "Elas apagam com os filtros, mas eu tenho uma máquina que te mostra como a sua pele é, de verdade. Meu objetivo é tratar para diminuir a glândula, e com isso diminuir o poro. Mas elas não querem fazer um tratamento, querem algo imediato, como sair da clínica com a pele perfeita no mesmo dia, e isso é impossível, por exemplo, se você tem a pele muito oleosa. Para isso você continua usando um filtro. É preciso estudar a pele e a partir dela desenvolver um tratamento".

Para a Dra. Carla, a preocupação com o aspecto da pele, quando motivada pelas selfies e Instagram, é totalmente superficial: "Elas querem a estética mas não o tratamento. Não querem passar creme nem ter trabalho, mas isso é jogar a sujeira para debaixo do tapete. A gente pode passar o Dermablend e você fica perfeita, mas por baixo não está bom. Você está perfeita só para aquela foto. Só que a gente pode tratar para deixar a pele boa sem filtro", afirma, citando até o transtorno obsessivo compulsivo como uma consequência direta da fixação por padrões inatingíveis das redes sociais: "Tenha o pé no chão. Saiba como você está de verdade, ao invés de se enganar. Colocar botox em uma pele que não está pronta para isso, por exemplo, é como colocar uma cereja no bolo que não está pronto ainda. É preciso ter muita consciência", finaliza.

Os dados são alarmantes, e não mentem: quase 40% das garotas que passam mais de cinco horas nas redes sociais diariamente têm sintomas de depressão. Outro estudo apontou que quem passa muito tempo nas redes sociais diariamente tem duas vezes mais chance de desenvolver distúrbios alimentares. Enquanto isso, o fotógrafo John Rankin Waddell divulgou um estudo batizado de Selfie Harm: nele, o fotógrafo britânico clicou uma série de jovens e depois deixou que cada um deles as editasse para que ela estivesse pronta para as redes sociais. O resultado? "As pessoas estão copiando seus ídolos, deixando seus olhos maiores, seus narizes menores e suas peles mais claras, tudo por curtidas nas redes sociais. Esta é apenas mais uma razão pela qual estamos vivendo em um mundo de FOMO, tristeza, ansiedade e dismorfia de Snapchat. É hora de reconhecer os efeitos nocivos que as redes sociais têm na autoimagem das pessoas". Sabe o mais curioso? Todas as pessoas que alteraram suas imagens nos estudos preferiram, no final das contas, suas fotos originais.

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É preciso urgente se conscientizar quanto à cultura dos clones de redes sociais. Tudo bem ter poro visível, gente, tudo bem ter cravo, manchinhas... Tudo bem a pele não ser perfeita, se ela está bem cuidada e saudável. Isso, na verdade, é ser perfeita. Desligue o celular um pouco, tire os olhos da tela e ame sua pele como ela é: de verdade. Com tudo o que faz parte dela, com tudo que é natural (sim, poros inclusive!). Por mais espelhos e menos filtros.

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