Das compras aleatórias da quarentena: uma vela perfumada

Quem aí também entrou para o seleto grupo dos compradores-de coisas-esdrúxulas-durante-a-quarentena anônimos?

Foto: Mindaugas Norvilas/ Unsplash

Quarentena, né? As pessoas vão comprar menos, o consumismo vai diminuir... "Gastar dinheiro pra quê se a gente não pode nem sair de casa?" Tudo muito bonito, poético, até meio apocalíptico, mas queridos... a gente sempre dá um jeito.

E não adianta nem negar que você não faz parte do nada seleto grupo dos compradores-de coisas-esdrúxulas-durante-a-quarentena anônimos. Você pode fazer parte e não saber, mas cola aqui que eu vou te mandar a real: você faz. Você não lembra ou não se tocou, mas te desafio a me responder que você não comprou nada além do essencial durante este período de quarentena. Por essencial se entende: comida, bebida, higiene e skincare (RISOS, mas não muitos).

Aqui no time da Sallve a lista é das mais variadas:

01 máquina de karaokê
01 decoração para porta de banheiro
01 botinha da Melissa mesmo sem poder sair de casa
01 Alexa
01 binóculo
01 top que tem potencial para só ser usado dentro de casa
02 tonalizantes (ambos ainda não utilizados)
+30 plantas
01 corda
muitos itens de decoração
muitos itens de papelaria

("Eu tenho 100% de noção que foi completamente aleatório apesar de ter amado e ter desejado", diz a nova proprietária de uma Alexa, que jamais apagará a luz de seu quarto manualmente de novo)

Minha compra aleatória foi uma vela perfumada (não nego nem confirmo que uma das compras da lista acima também foi minha). Eu mesma, que passei anos da minha vida dizendo que jamais compraria uma vela perfumada porque basicamente, gastar dinheiro com uma vela era queimar dinheiro. Pois bem: em plena quarentena eu cismei que precisava uma vela para renovar o cheiro da minha casa. E tinha que ser aquela vela. Compras aleatórias, prazer.

Foram semanas pesquisando, lendo resenhas, comparando preços (embora fosse tudo tabelado), aprendendo como acender e apagar a vela para não desperdiçar cera (juro que tem dessas), como tirar o máximo de proveito da fragrância, como evitar aquele túnel no meio da vela (veja bem, nenhuma compra minha tem graça se não passo dias pesquisando no Google antes, e isso vale de escova de dente a... bem... velas perfumadas). De uma semana para outra eu me tornei uma expert em velas. Fiz minhas contas, me organizei e pronto: estava pronta para fazer minha compra.

"Não acredito que estou comprando uma vela perfumada"

Jurei que me arrependeria no primeiro dia. Não ia fazer a menor diferença, e eu ainda comprei o maior tamanho. O pior é que fez. Minha casa está deliciosa e aconchegante. O cantinho da sala onde trabalho - e onde fica a mencionada vela -, ficou cheirosinho por dias após eu tê-la apagado (com o cuidado de deixar toda a cera da parte de cima derreter, veja bem).

Acendi a vela uma vez até hoje. Mas foi um momento que eu curti tanto que me fez bem. O ritual de sentir a chama acendendo, o cheiro começando a flutuar pela casa. O admirar do pote lindo em cima do móvel que depois vai virar porta-pincéis. E sabe o que é mais engraçado? Foi algo que só eu curti dessa forma. Ninguém na minha casa deu a menor bola. Foi uma compra só minha, uma curtição só minha. Mas foi assim mesmo que eu idealizei, e daí, né? Algo de mim para mim. Compra aleatória, fato. Mas que no meio de tanta incerteza meu trouxe a sensação de que eu estava me curtindo, e que ainda há espaço para algo que não sejam as péssimas previsões.

Nossas compras aleatórias durante a quarentena têm muito de consumismo sim, mas em defesa desse grupo, a carne é fraca: poucas coisas são mais gostosas no mundo do que o interfone tocando e alguém dizendo "Chegou um pacote aqui embaixo pra você." É tão legal que você esquece que foi você mesmo que pagou por aquilo (não se preocupe, seu extrato vai te lembrar).

Pode ser também o fenômeno do cabeça vazia oficina do "não to gastando com nada mesmo, né, vamos nos dar um presentinho. Que tal um bafômetro?" Essencial? Fundamental na nossa vida? Não. Mas acho que talvez a gente ande precisando de alguma experiência que não seja acompanhar estatísticas.

Talvez seja a curtição da gente se dar alguma coisa que não está nem de longe precisando agora, só pelo prazer de se dar algo supérfluo, pelo prazer de se presentear. De uma forma ou de outra, não precisa se culpar: uma hora volta a ter plateia para a sua máquina de karaokê.

Alexa, let the music play.

vamos conversar?

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