Com o crescente uso de canetas GLP-1 no Brasil, muito tem se falado sobre os impactos do emagrecimento acelerado na pele. Não é incomum que pacientes que fazem uso do tratamento identifiquem maior flacidez, perda de estrutura e sustentação, principalmente no rosto. Alguns apontam essas mudanças como se o que acontecesse fosse um "derretimento facial", mas a verdade é que o papo é - ou deveria ser - muito mais amplo que isso.

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O segmento movimentou, só em 2025, R$ 10 bilhões no mercado farmacêutico brasileiro, segundo reportagem do Valor Econômico. A rápida e desenfreada disseminação do tratamento, já ditou mudanças na moda, na gastronomia e, claro, chegou também nos cuidados com a pele. Mas será que isso faz sentido mesmo?
Quando pensamos em pele, há de fato questões importantes. A Sociedade Brasileira de Dermatologia fez um alerta de que mudanças consideráveis podem acontecer na pele, por isso é importante que pacientes em tratamento com canetas GLP-1 façam "acompanhamento multidisciplinar, com a participação do médico dermatologista’. Por isso, é importante entender o que acontece com a pele nesses casos.
O que acontece na pele quando temos uma variação rápida de peso?
A nossa pele é incrivelmente inteligente e sofre alterações tanto quando emagrecemos, quanto ganhamos peso. A velocidade em que isso ocorre é que impacta diretamente no tempo que a pele tem para se adaptar a essa mudança.
Fora isso, ainda há o impacto de alguns fatores, como idade, genética, histórico de exposição solar, tabagismo, alimentação e o tempo que a pele sofre alteração, por exemplo, o tempo que ela ficou distendida.
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“Quando ganhamos peso, ela se estica pacientemente para acomodar esse novo volume. O ponto principal é que, ao emagrecer de forma significativa ou acelerada, o volume de gordura subcutânea (aquela que fica logo abaixo da pele) e até a massa muscular diminuem drasticamente. O resultado? A pele perde o seu 'colchão' de suporte mecânico e o famoso turgor — aquele aspecto de pele firme e preenchida”, explica a Dra. Glauce Eiko, membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD).
É claro que esse impacto acontece no corpo todo, mas é na face que se vê mais rapidamente a mudança da diminuição da quantidade de gordura nos compartimentos responsáveis pela firmeza, sustentação e contornos. Vale lembrar que esse estoque ainda ajuda a proteger os músculos e os ossos.
E tem outro processo que causa uma perda de estrutura parecida, viu? “Com o processo natural de envelhecimento, já há diminuição progressiva desses compartimentos de gordura. Por isso, as pessoas costumam se referir à sensação de 'rosto derretido'. É como se o 'conteúdo' do rosto diminuísse e a pele 'ficasse sobrando'. Com a rápida perda de peso, ocorre o mesmo”, completa a Dra. Paola Pomerantzeff, também membro da SBD e da SBCD.
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A Dra. Glauce reforça ainda que a mudança maciça de peso altera a estrutura real da derme. Há uma redução na espessura dérmica, as fibras de colágeno perdem densidade e a rede de elastina fica desorganizada.
Desse modo, surgem a flacidez, as "sobras" de pele, os sulcos e as rugas mais profundos. “Em casos mais acentuados, o acúmulo de pele gera dobras que se sobrepõem, o que pode causar atrito, suor retido e abrir caminho para a dermatite intertriginosa (aquela irritação chata ou infecção por fungo)”, explica ainda.

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Só a pele sofre?
Não, não é só a pele que sofre, os cabelos e as unhas também podem sofrer alterações. A Dra. Paola aponta que pode ocorrer queda de cabelo e enfraquecimento dos fios, como em quadros de Eflúvio Telógeno: “o déficit nutricional e o estresse metabólico do emagrecimento afetam o ciclo capilar.”
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A boa notícia é que o eflúvio telógeno é uma condição temporária e reversível. Em alguns meses, após a estabilização do peso e o reequilíbrio metabólico, o ciclo capilar se normaliza e os fios voltam a crescer.
Efeitos na pele: medicamento ou perda de peso?
Talvez você esteja se perguntando se esses efeitos são da medicação ou são explicadas apenas pela perda de peso acelerada.
"Essa é a grande chave para entender o problema. A maior parte das alterações de flacidez cutânea e, muitos dos episódios de queda capilar, são plausivelmente explicados pelo emagrecimento rápido e pela consequente redução do tecido subcutâneo e muscular. Trata-se de um mecanismo físico e nutricional. Temos um forte embasamento para isso: os estudos com pacientes que passaram por perda maciça de peso decorrente de cirurgias bariátricas mostram alterações cutâneas muito semelhantes às que observamos após o emagrecimento por via medicamentosa", explica a Dra. Glauce.
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A médica, porém, pondera que não é possível ignorar algumas sinalizações de farmacovigilância, que sugerem que os agonistas do receptor de GLP-1 podem, sim, dar uma contribuição — seja ela direta ou indireta para essas questões. Há relatos de alopecia com uso de semaglutida, além de queixas frequentes de mudanças faciais marcantes e deflação cutânea acelerada em usuários dessas medicações.

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Quais os cuidados principais com a pele?
Partindo do ponto que muita coisa pode impactar na flacidez da pele, existem alguns cuidados que podem ajudar, mas é sempre importante reforçar que nem toda flacidez é 100% evitável. As dermatologistas apontam:
• gerenciar a velocidade do emagrecimento
• preservar e construir massa magra
• otimizar a ingestão de proteínas e macronutrientes
• evitar a exposição solar prolongada e sem proteção
• hidratar continuamente e ter cuidados com a barreira cutânea
A Dra. Paola aponta que planejamento e cuidados prévios, que preparam a pele antes do início do emagrecimento também são indicados. Cuidados associados de tecnologias e injetáveis podem ser recomendados a depender do caso.
A Dra. Paola Pomeratzeff concorda: "esses medicamentos afetam os músculos e o colágeno pelo déficit proteico, mas a grande causa é o emagrecimento em si."
Até onde os dermocosméticos de uso diário podem ajudar?
O foco da rotina diária deve ser proteger a estrutura e estimular a renovação celular, além de apostar em hidratantes e reparadores de barreira. A consistência é a regra de ouro.
“Alguns dos efeitos colaterais podem ser sudorese excessiva e pele seca por alterações hormonais ou pela menor ingestão de água e alimentos. Portanto, o ideal é hidratar muito a pele. Hidratantes com ácido hialurônico de diferentes pesos moleculares são ideais. Além disso, podemos associar vitamina C pela manhã e ácido retinóico (ou algum de seus derivados) à noite. Além de sempre usar protetor solar!”, recomenda a Dra. Paola Pomerantzeff.
A Dra. Glauce concorda e reafirma que ativos clássicos podem ser excelentes aliados nos cuidados com a pele para quem está passando por esses tratamentos. Anota aí a lista:
• Retinóides tópicos: "aumentam a renovação epidérmica e estimulam os fibroblastos na síntese de colágeno dérmico, melhorando a espessura da pele."
• Antioxidantes, como Vitamina C: "funcionam como um excelente escudo protetor contra o dano oxidativo (que destrói fibras de sustentação) e agem diretamente como cofatores essenciais na síntese de colágeno."
• Hidratantes de barreira: "produtos formulados com ceramidas, glicerina, umectantes e emolientes são indispensáveis. Eles não servem apenas para a superfície; ajudam a reter a água na pele, mantendo a integridade da barreira cutânea e melhorando o turgor (aquele aspecto de pele viçosa e preenchida)."
• Protetor solar diário FPS ≥ 30: "é o passo mais obrigatório e inegociável da rotina. A radiação UV causa fotoenvelhecimento e acelera drasticamente a degradação do colágeno existente, piorando muito o quadro de flacidez corporal e facial."
• Cremes com peptídeos: "embora a literatura apresente evidências variadas e os resultados cosméticos sejam mais modestos quando comparados a procedimentos injetáveis realizados em consultório, podem atuar como coadjuvantes bem-vindos para melhorar a aparência geral da pele."
Lembre-se: essas recomendações podem ajudar, mas o ideal é que você procure um dermatologista para entender o que vai de fato se ajustar ao seu tipo de pele, combinado?
Além dos cuidados em casa, muitas vezes é necessário associar tratamentos dermatológicos, como ultrassom microfocado, lasers, injetáveis, entre outros. As duas coisas podem e devem andar juntas para o melhor cuidado com a pele e um não substitui o outro.
A Dra. Glauce explica: "São engrenagens que dependem uma da outra. Os procedimentos médicos — como os bioestimuladores e as tecnologias — promovem um remodelamento tecidual profundo nas camadas da derme e no músculo que nenhum creme sozinho consegue alcançar. Se o paciente não mantiver uma rotina domiciliar consistente, o benefício desses tratamentos é drasticamente reduzido, e o declínio do estímulo acontece muito mais rápido."
"Precisamos entender que o pós-emagrecimento exige uma abordagem multidisciplinar. O sucesso do tratamento depende do alinhamento entre o dermatologista, o nutricionista, o educador físico e o médico assistente que prescreve a medicação. Juntos, conseguimos monitorar deficiências nutricionais, planejar treinos de força eficientes e definir o momento exato de cada intervenção. Como, por exemplo, o momento certo de estabilização do peso antes de indicar uma cirurgia corretiva", finaliza.