Mostrando o ombrim no verão

Carol Figueiredo relembra o verão em que finalmente se sentiu livre no seu próprio corpo - com direito a trilha sonora!

Não sei vocês, mas eu ando meio - muito - obcecada pela Marina Sena. Aquela da música do TikTok, sabe? “Eu jádeitei no seu sorriiiiso, só você não sabe…”. Rainha demais. Mas assim, usei essa música só para te fazer lembrar dela, porque a Marina é muito mais do que uma cantora de TikTok. A gata até publi pra Sallve já fez. Falando sobre a sua trajetória musical, Marina já esteve em duas bandas antes de seguir carreira solo. Bandas incríveis, por sinal. Super recomendo. Inclusive, eu conheci o trabalho dela quando ela ainda estava na banda Rosa Neon. A minha música favorita deles era "Fala lá pra ela", mas a mais conhecida é “Ombrim”. 

Ai, que delícia o verão

A gente mostra o “ombrim”

A gente brinca no chão

Simplesmente tudo pra mim! Amo essa música. E acho ela genial e um marco na minha vida de pessoa que aprendeu a curtir o verão da forma correta: sendo livre. Não faço ideia se foi a intenção dos compositores fazerem as pessoas refletirem sobre como lidavam com seus corpos e com o verão, mas sempre que escutava essa música eu ficava pensando: “Uau, mostrar o ombrinho. Até isso eu tenho vergonha de fazer…”, e depois ficava doida pra tomar um banho de mangueira e piscina de plástico porque tem no clipe. 

Mostrar pele no verão sempre foi uma questão pra mim. Morria de vergonha. Era como se meu corpo não fosse digno de levar nem que fosse uma frestinha de luz do sol. Já até falamos um pouco sobre isso por aqui, lembram? Sobre o meu processo de amar as marcas que meu corpo possui por conta do meu processo de crescimento. Hoje quero aproveitar esse clima quente e gostoso que estamos vivendo e falar sobre como eu passei de “odeio mar!” para um peixinho na água que ama usar biquíni. 

Pera. Peixinho não. Sereia, talvez? Melhor. 

Falar sobre processos corporais sem voltar um tico no tempo para mim é impossível. Isso porque, sendo uma criança gorda, muito do meu jeito de lidar com meu corpo veio já da infância. Falar sobre verão é me teletransportar diretamente pra época de pré-adolescência e início de vida social. Sabe aquela fase da nossa vida onde nossos pais começam a deixar a gente sair sozinhas para casa dos amigos? Pronto. 

Lembro exatamente de uma vez que fui convidada para o aniversário de uma coleguinha do colégio. Devíamos todas ter entre 12 e 14 anos de idade. Eu me lembro de ter 12, sempre fui a mais nova da turma. A minha amiga me entregou o convite toda alegre e, obviamente, eu também fiquei. Até que abri o envelope rosa-chiclete e vi que o convite era todo enfeitado com bolinhas e boias e solzinhos e biquininhos. 

Festa na piscina! estava escrito no título. Bem grande e em negrito mesmo. 

Era a minha primeira festa na piscina. Com 12 anos eu já era uma criança que pensava no próprio corpo como algo errado. Ao ler o convite por completo, engoli seco, olhei ao redor e comecei a reparar no corpo das meninas que estavam também com o convite na mão. Todas mais magras do que eu. Fiquei desesperada, principalmente pelo fato que a festa seria naquele domingo. 

“Como eu vou emagrecer o suficiente para ir até domingo?”, pensei. 

Fui pra minha casa e a minha mãe já no carro percebeu que eu estava bastante ansiosa. Expliquei a situação e ela me ajudou a pensar em algo. Não queria deixar de ir, afinal, era minha primeira festa na piscina e eu adorava festas. Mas ainda sim não queria ir com “aquele” corpo. Mainha - como a chamo carinhosamente - me levou pro centro da cidade para procurarmos um biquini ou maiô que me deixasse minimamente confortável. 

Encontramos uma peça bem grande que cobria braços e compramos um short para usar por cima da calcinha do biquini. Isso tudo eu tinha 12 anos. Doze. 

Acabou que fui pra festa, mas não me lembro de muita coisa. A memória mais vívida desse fato foi essa: eu desesperada pra cobrir meu corpo em uma festa que queria ir para me divertir. Não me lembro da diversão, nem dos meus amigos, nem de quase nada. Só de mim na beira da piscina pensando se alguém estava em algum lugar fora da minha vista rindo do meu corpo.  

Fala sério, gente. Isso é muito bad. Nenhuma menina deveria passar por isso. Muito menos aos 12 anos de idade. Na verdade, ninguém devia. E foi assim por muito tempo, tá? Essa foi só a primeira vez. Me marcou tanto que lembro exatamente como era o biquini e short que compramos. 

O que eu queria mesmo era poder voltar no tempo e falar com a minha versão pré-adolescente sobre isso. Se eu tivesse esse super-poder, faria. E nem seria pra falar “ah, seu corpo é lindo!”, mesmo que ele fosse. Eu gostaria de me mandar não ligar para isso, porque, se for pra gente parar pra pensar, não tem sentido abdicar de momentos incríveis de nossas vidas simplesmente porque temos medo do que as pessoas vão pensar sobre nossos corpos. 

Que doideira isso! Ao invés de colecionar memórias legais com meus amigos na minha primeira festa na piscina, eu colecionei inseguranças. Tudo isso porque me ensinaram que meu corpo e minha aparência são mais importantes do que quem eu sou e do que a bagagem que carrego dentro de mim e do meu coração. 

Como disse anteriormente, custou muito para mudar isso em mim. Até pouco tempo atrás eu não tomava banho de mar ou de piscina sem aquelas malhas de banho que cobrem os seios e braços - que são os lugares em que tenho mais estrias no corpo. Hoje em dia já consigo passear pela areia da praia usando um belíssimo biquini cortininha e colocando a bunda pra jogo num fio dental azul. E quem quiser que olhe. 

Meu corpo bonito merece receber o sol do verão, a brisa fresca e a água refrescante do mar. Merece ser livre, merece mostrar pele e merece toda vitamina D que ele precise receber. Não vou ser eu que vou tirar isso dele. 

Claro que às vezes eu me sinto totalmente desconfortável porque ainda tem gente boba que julga com olhares e fuxicos. Mas uma coisa que eu penso e me agarro é que, sinceramente, que perda de tempo deles! Imagina sair de casa, escolher uma roupa, gastar gasolina ou dinheiro com transporte pra ir à praia e perder tempo julgando o corpo alheio ao invés de aproveitar o passeio? Do que adianta esse julgamento tão sem sentido se depois do rolê a pessoa vai seguir sua vida e eu continuarei com esse corpo maravilhoso e que me abriga e me dá condições de curtir momentos? Pois é. 

Meu conselho pra você que pode estar se identificando com o que estou dizendo é: se agarre no momento que você está vivendo. Embora exista e mereça ser apreciado e empoderado, às vezes a gente precisa de agarrar no fato que nosso corpo é apenas um corpo. Um corpo que se movimenta do jeito que pode, que se locomove do jeito que consegue, que te habita e te nutre, que aguenta longas caminhadas e que te abriga durante as melhores aventuras da sua vida. Que tal finalmente se apegar a isso e esquecer as inseguranças que esse mundo doente insistiu em plantar em você? Prometo que vai ser libertador. 

Por fim, te indico ouvir Ombrim - Rosa Neon e sair andando por aí (pode ser pela casa mesmo) apreciando a sensação que é permitir usar peças pequenas e refrescantes e que mostrem pele e a alegria dela de estar se refrescando. Como diz a Marina Sena, é uma delícia 😎

vamos conversar?

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