O primeiro passo pode ser a tarefa mais importante da jornada

A Bruli é um dos rostos da campanha Conforto na Pele, que marca o lançamento da coleção Hering Intimates x Sallve. Aqui, ela conta sua jornada com seu corpo - e ela é linda!

Por: Bruna Maria (@criaturadeconteudo)

bruna maria
Foto: Instagram @criaturadeconteudo

O meu processo de autoconhecimento e jornada com meu corpo começou há pouco tempo - uns cinco anos, mais ou menos. É um pouco tarde ao mesmo tempo em que não é, porque hoje sei que dei meu primeiro passo seguindo a ordem natural das coisas. Minha jornada começa mesmo quando eu transiciono de gênero. Foi a mulher em mim que me libertou de muitas amarras e me trouxe um pouco mais de consciência de quem eu sou, pois antes mesmo desse “update de sistema”, eu nem tinha conhecimento de quando estava sentindo raiva por exemplo. Era tudo muito misturado, embolado, e não havia espaço ou convite para olhar para essas questões - até porque “meninos não choram”, não é mesmo?

É tanta coisa pra falar que eu esqueci de me apresentar: meu nome é Bruli Maria, tenho 30 anos, moro sozinha numa casinha na floresta com minhas duas gatas, trabalho como atriz, brinco de ser modelo e também atendo como taróloga e outras terapias. Gosto de morar na natureza porque sinto que observá-la me ajuda a me tornar um ser humano melhor. Ah! Eu também sou assumidamente cadelinha da Sallve. Confio muito nos produtos, sou consumidora real e estou me sentindo alumbrada de estar aqui escrevendo no blog.

Ao som de Elis Regina

Agora falando cronologicamente sobre a minha vida: na infância fui uma criança lida como estranha, porque eu via coisas e acordava chorando. Sempre fui muito tímida e recolhida. Minha mãe me colocou pra fazer terapia desde pequena na tentativa de driblar esses desconfortos, e lembro que um dos exercícios combinados entre a psicóloga e minha mãe era que assim que chegássemos no consultório, minha mãe precisaria dizer que ia embora e voltaria mais tarde para me buscar. Isso mexia muito comigo. Eu tinha um medo que não sabia de onde vinha. Era desafiadora demais a sensação de me sentir abandonada pelos meus.

Nas sessões, depois de me perguntar coisas que eu nunca sabia responder, a psicóloga também saia da sala, e me deixava montando quebra-cabeças sozinha. Eu os montava o mais rápido possível, na ideia de que alguém voltaria ali para me buscar assim que eu concluísse a tarefa. Mas a realidade não funcionava assim. Isso tudo poderia levar uns cinco minutos ou mais, mas para mim, era um eternidade. Lembro que tinha uma parte do ambiente do consultório que era aberta e dava de frente pra um jardim. Lá ia eu, toda lúdica, fazer amizade com as árvores, para passar o tempo e não ficar sozinha. Mas eu gostava mesmo quando a psicóloga chegava com a minha mãe, porque significava que era hora de passear e comer doce.

Outro momento da minha infância do qual me lembro com muito carinho e que me marcou muito é que eu gostava muito de escutar Elis Regina, por influência da minha mãe. Aquele cabelo curtinho dela era um dos poucos elementos que me aproximava de ser mulher também. As poucas vezes que fiquei sozinha em casa, lá pelos 9 anos, eu me arrumava, me maquiava e cantava “Fascinação” de frente para o espelho. Esse era um momento de apogeu, de palco, de realização plena, e eu me sentia mulher por completo. Mas depois eu tinha que limpar qualquer vestígio e queimar os papeis higiênicos que eu me limpava, pra não deixar rastros.

Ali em torno dos meus 13 anos, minha irmã convenceu minha mãe de que seria uma boa ideia me colocar em aulas de teatro, e essa foi uma decisão familiar muito importante, que eu agradeço muito. Imagina só, uma adolescente muito tímida que quase não tinha amigos, gostava de jogar xadrez sozinha, amava assistir novelas e sonhava em atuar na TV? Esse poderia ser o começo da minha própria alforria.

E então... o teatro

No teatro eu pude viver através da arte vidas muito mais interessantes do que a minha, porque a vida por si só não me bastava - além de me tornar um tanto melancólica. No palco fui explorando um pouco do meu ser, daquilo que gostava ou não de fazer, fui estudando mitologias e percebendo que não havia nada de errado comigo, não existia pecado nem culpa. Eu gosto de ler mitologia até hoje: se esses vazios e conflitos acontecem até com os deuses, o que dirá de nós pobres mortais?! 

Foi nessa época que me descobri ateia: se a igreja católica não me aceitava como sou, os deuses do teatro e da mitologia me abraçavam do jeitinho que era. Assim, fui descobrindo o friozinho na barriga na hora de apresentar as peças para o público, tudo isso me deixava viva, pulsando... Virou uma espécie de religião. Tinha uma frase na coxia do galpão em que ensaiávamos que me marcou muito: “Ninguém é tão grande que não precise, nem tão pequeno que não possa!”

Mais tarde, depois de desistir do teatro por conta de disputas de papel e ego artístico, fui tentar algumas faculdades. Ao mesmo tempo, também saí da casa da minha mãe na tentativa de ter mais independência e espaço, já sentia que precisaria traçar uma investigação mais sincera comigo, mas não sabia como (não mencionei meu pai aqui, porque como na maioria dos lares brasileiros e na minha formação como ser humano, ele foi bastante ausente).

Aos 22 anos abandonei o trabalho, estudos, minha cidade e fui morar numa espécie de comunidade de autoconhecimento em Nazaré Paulista - SP, chamada Nazaré Uniluz.

Fiquei um ano e meio lá dentro, e ali – longe de todas as referências que eu tinha, família e olhares conservadores – tudo me era desconhecido e tinha um gostinho bom. Era um solo fértil para o meu questionamento começar, só que mais profundo do que no teatro dessa vez, porque eu poderia ser de fato o que eu sou, sem precisar de personagens para me apoiar. Eu me sentia cada vez mais próxima de mim. 

Entre práticas corporais, meditações, trabalhos terapêuticos e a própria convivência grupal, fui repetindo alguns velhos padrões, aprendendo novos jeitos de responder ao mundo, me corrigindo, descobrindo novos talentos e abrindo uma escuta corporal: eu sabia que não era um menino, mas ainda tinha muito medo de transicionar de gênero.

"Eu vou trazer essa mulher pra terra!"

Na verdade, comecei minha descoberta de forma ainda andrógina: eu me experimentava brincando com os gêneros e fui bem aceita assim. Essa aceitação externa foi mega importante e me permitiu olhar para mais degraus. Voltei a fazer terapia com a intenção de saber se eu era uma mulher trans mesmo (apesar de saber que sim). Em algumas semanas eu tinha certeza que sim, em outras tinha medo e imaginava que eu fosse apanhar na rua. Nessas, preferia ficar mais um tempo quietinha.

Até que um dia, depois de sair do banho, entrei numa crise de choro e questionamentos, fui conversar comigo na frente do espelho, levei todas essas questões que estavam me afligindo e ali disse pra mim mesma: “eu vou trazer essa mulher pra terra!”. Depois de um tempo comecei o processo de transição. Eu me senti uma aberração no começo, porque é um processo lento. Além disso, você precisa ter uma cabeça muito segura da decisão. Eu chorava muito, mas uma coisa que percebi é que eram os hormônios que choravam por mim. Toda a química que estava acontecendo no meu corpo me fazia chorar. Nessas indagações sobre os limites do meu corpo também descobri em terapia que sofri abuso na infância, por isso havia muito trauma e rigidez escondidos no meu corpo. E cada vez mais as verdades e os apoios se escancaravam na minha frente.

Nessa época também tive muito apoio de um ex-namorado, mas a nossa relação acabou de forma tóxica e traumática, o que me fez mergulhar de cabeça em estudos feministas e observar com mais cautela o meu corpo, minhas escolhas, minhas companhias, minhas vontades e perceber que meu corpo é sim político. Tudo o que é feminino é objetificado ou choca a nossa sociedade fálica. E as mudanças em mim iam ficando mais perceptíveis: eu me sentia empática, mais receptiva, me interessava mais e mais por histórias reais, fui deixando de lado a mitologia e fiz questão de viver a vida aqui na terra mesmo, fiz algumas amizades e amigas muito importantes e quero nutrir essas relações por toda uma vida.

Grande parte do que eu havia soltado pra viver esse processo foi voltando a minha vida com mais verdade. Voltei a trabalhar com artes cênicas de novo, mas agora eu era uma atriz e estava apta a viver minha verdade em cena e as pessoas estavam interessadas realmente em ouvir minha história, porque eu me escutei antes. 

Foi mais ou menos nesse período que eu ouvi um burburinho na internet sobre uma marca de skincare que estava chegando no mercado e que prometia revolucioná-lo formulando produtos eficazes. A primeira coisa que eu fiz foi duvidar, porque estava cansada de escutar propagandas enganosas sobre esse assunto. Mas o desejo de experimentar foi maior e continuou dentro de mim. Comprei o meu primeiro Antioxidante Hidratante e me apaixonei desde o primeiro dia de uso! A experiência na pele era confortável, o viço que aparecia, a sensação de me sentir cuidada, eu me lembro de preparar todo um ambiente com velinha acesa pra passar ele no rosto, e ia percebendo as mudanças graduais que iam acontecendo dia após dia…

Sem contar que eu lia dicas no blog, além dos posts da Sallve lembrando a gente de beber água... Dava pra ver que era um projeto de cuidado de dentro pra fora mesmo e que a marca estava interessada nas pessoas também. De lá pra cá eu fui só confiando mais e mais na Sallve e me encantando pelo meu momento de autocuidado. Na adolescência eu tive acne e usava cosméticos que só irritavam a minha pele, o que só me fazia sentir raiva de mim mesma. Lembro de esfregar os produtos no rosto, como se quisesse trocar de pele mesmo, sabe?!

Hoje, sigo aqui me cuidando, com muita paciência em observar que tem coisas que a gente não consegue mudar de uma hora pra outra: é preciso observar os pequenos passinhos que estamos trilhando, entender que estamos dando nosso melhor, subindo degrau por degrau… A Sallve faz parte da minha história, me ensinou a ter cuidado com a minha pele, mas também reverbera na minha estima e no meu bem-estar.

Acho bonito também perceber, agora que li esse texto e estou concluindo ele, como a minha história tem sido escrita de forma certa em linhas tortas. Nem eu nem minha família tivemos culpa - eles não teriam como me ajudar mesmo. Mal se falava no assunto na época, não tínhamos referências, nem teríamos estrutura para lidar com todo o meu processo. É diferente de hoje, em que temos muitas informações sobre as pessoas trans. Por isso deixo aqui o meu apelo para que todos apoiem as pessoas dos seus círculos. 

Eu também sinto, depois de me analisar tanto, que era algo que eu mesma precisaria revirar e viver para me encontrar nessa versão minha. A criança que tinha medo de ser abandonada, atualmente mora sozinha no meio da floresta. Consigo dizer sem vergonha que tenho orgulho de quem estou me tornando. Sei que minha jornada no mundo é única - nem mais, nem menos que a de ninguém, mas única e singular; e sigo animada para descobrir minhas outras próprias páginas de histórias vividas que virão com o tempo.

Obrigada pela leitura, espero que minha história possa te ajudar a entender melhor a sua.

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