Por que se tornou normal sermos tão violentas com nós mesmas?

"Estou uma porca de gorda!"
Foram estas as palavras proferidas por uma mulher, em um espelho, numa loja carioca, na frente de tantas outras mulheres, que geraram a pergunta: se tornou normal nos violentar desta forma?

Foto: Septian Simon/ Unsplash

É engraçado como tem coisas que a gente só nota no nosso povo quando vai morar fora do país. Faz 12 anos que frequento o Rio de Janeiro como "turista", pelo menos uma vez por ano, e com o passar do tempo consigo cada vez mais notar o que faz de nós, mulheres brasileiras, tão especiais.

Somos coloridas, somos exuberantes, alegres. Somos charmosas, cuidadosas, lindas mesmo. Todas nós. Na reta final de 2019, em mais uma visita à minha cidade maravilhosa, porém, senti mais uma vez o quanto tudo isso vem acompanhado de tanta pressão.

Estava no provador de uma loja, experimentando algumas peças de roupas. Ao meu lado, uma mulher fazia o mesmo. Saímos as duas de nossas cabines exatamente ao mesmo tempo. Ela experimentava uma saia de pregas lindas (que imediatamente pedi para provar igual, afinal de contas, não perdemos tempo, risos), e estava ótima.

A vendedora fez sua parte: "Ficou ótimo, né?"
A cliente reclamou: "Que nada, eu engordei muito".
A vendedora retrucou: "Não achei não!"
A cliente, mais uma vez, reforçou: "Você está sendo educada. Eu estou uma porca de gorda".

Imediatamente, ao ouvir não apenas as palavras saírem de sua boca, como a violência com a qual cada palavra foi pronunciada - especialmente "PORCA" -, fiquei tão chocada. O que é que nos leva a ter esse tipo de relacionamento tão cruel com nós mesmas? Por que estamos em um ponto em que se tornou normal nos agredir desta forma? É sério que é assim que falamos da gente?

A gente engorda, a gente emagrece. Tem gente que se prefere mais gorda, tem gente que fica mais feliz quando emagrece. Absolutamente nada disso vem ao caso. O que vem ao caso é como a gente chegou num ponto em que acha normal se agredir desta forma, em frente ao espelho, em voz altíssima, na frente de todo mundo.

A mulher levou a saia. Eu fui embora da loja pensando se, toda vez que ela vestir a peça (que contou estar comprando para o Natal), vai se olhar no espelho e se achar uma "porca de gorda".

Duas semanas depois, as palavras dela ainda ecoam na minha cabeça. Aqui nesse espaço em que falamos tanto sobre autocuidado, autoconfiança, sobre cultivarmos um relacionamento de carinho com nós mesmas, deixo um manifesto embalado como uma resolução para esta nova década: e se formos mais gentis com nós mesmas nestes recém-chegados anos 20?

De nada vale sermos coloridas, exuberantes, alegres, charmosas, cuidadosas - lindas mesmo - se do lado de dentro usamos palavras que mutilam qualquer relacionamento saudável com nós mesmas. Porque se for este o custo, o preço está alto demais. 

A gente cuida tanto da nossa pele, do nosso corpo, procura tanto se conhecer... Sentir-se insatisfeita com sua aparência faz parte da vida. Mas que isso não sirva jamais de justificativa para nos agredir desta forma, que isso não se transforme em violência. Não vale à pena.

Mais amor, por favor. Em primeiro lugar, com nós mesmas. 

vamos conversar?

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