Plantas em casa: por onde começar?

Está louco para deixar sua casa verdinha, repleta de plantas? É por aqui que você tem que começar.

Foto: Lincon Catto (@el.catto)

Não é impressão sua: a quarentena, com todas as suas restrições, aflorou em muita gente a vontade de encher seus apartamentos de plantas. A procura por novas espécies e cada vez mais mudas cresceu consideravelmente nos últimos meses, indo bem além daquelas compras aleatórias da quarentena. Há quem diga que passamos a olhar mais para o ambiente em que moramos, ou que isso denote a falta que andamos sentindo falta do nosso contato com a natureza. De uma forma ou de outra, é um fato: viramos todos #santaceciliers.

Mas planta, manda avisar Lincon Catto, não é objeto de decoração: planta é ser vivo, e precisa de tanta atenção quanto seu animal de estimação. Lincon, designer, modelo e jardineiro, acredita ser justamente essa, aliás, a maior derrapada dos "assassinos em séries de plantas".

"As pessoas têm uma dificuldade de entender algo muito básico: que planta é um ser vivo assim como seu cachorro ou seu gato, por mais que aparentemente ela pareça estática", afirma ele, que tem 56 plantas em seu apartamento de 40 metros quadrados em São Paulo. "Tem gente que não faz ideia que planta precisa de água, por exemplo. Tem gente que acha que toda planta precisa de sol, sendo que a maioria das plantas que a gente encontra em lojas do gênero não são plantas para o sol - são plantas que foram criadas dentro de estufa, com iluminação controlada, super mimadas. Se você pega essa planta e coloca no sol ela vai morrer em um dia. As pessoas dizem que é muito difícil lembrar de dar água para a sua planta, mas aí eu pergunto: como você se lembra de dar água para o seu cachorro três vezes ao dia, repor a ração, levar para passear, limpar o cocô, mas não consegue lembrar que sua planta precisa de um copo d'água duas vezes por semana?"

Lincon é enfático assim mesmo. Quando perguntado sobre o que é preciso saber antes de começar a transformar seu apartamento em uma selva urbana, o jardineiro mergulha em questões que vão do subjetivo ao prático, sem qualquer rodeio, e tudo faz sentido. Aqui, ele dá as diretrizes do que você precisa saber antes de começar a deixar seu apartamento mais verde.

"O ser humano quer uma coisa fácil, e acha que planta é fácil, mas primeiramente: você vai ter tempo para cuidar dela?"

Lincon Catto

O seu espaço: luz

Foto: Lincon Catto (@el.catto)

Antes de comprar seu primeiro vaso, você tem que analisar como é o espaço em que você mora, principalmente da manhã até o começo da tarde, para entender qual é a luz que incide nesse espaço: "Entender o espaço é conseguir perceber a quantidade de luz que ele tem: pensa como se você estivesse na praia. Fora do guarda-sol é a luz direta, embaixo dele é claridade, ou seja, é quando o sol não está batendo na folha da planta. Tem gente que confunde, que acha que planta precisa de sol, mas essas plantas que você compra em lojas foram criadas em estufa. Daí quando a planta morre, a pessoa acha que foi a água, mas foi o sol em excesso."

Vale levar uma série de fatores em consideração quando se está analisando a claridade do seu espaço: você mora em um andar baixo cercado por prédios altos? Se sim, seu apartamento é mais escuro, o que vai demandar um jogo entre seu espaço e sua rotina, abrindo um leque de plantas que podem funcionar. "Dentro dele a gente vai ter plantas que demandam mais ou menos água: algumas você vai regar uma vez por semana, outras duas, outras a cada dois dias. Qual é sua noção disso?", explica Lincon.

Ele sugere que, naturalmente, todo mundo comece pelo mais fácil, "para você entender que aquilo é um ser vivo. Embora seja estático, ele está sempre em movimento - cada dia uma planta solta uma folha aqui em casa, e é sempre uma festa quando isso acontece".

A sua rotina: água

Foto: Lincon Catto (@el.catto)

Aprendeu a ler a luz do seu apartamento? O próximo passo importantíssimo é entender qual é a demanda de tempo que você vai ter para aquela planta: "Agora tá todo mundo em casa, mas daqui a seis meses, talvez, as pessoas vão estar de volta à vida corrida. Então como vai ser sua rotina? Você sai cedo e volta tarde? Tem um outro lance, também: muitas plantas não gostam de ficar molhadas à noite, então você vai ter que molhar a planta pela manhã, o que já interfere na sua rotina. Tem quem só acorda, põe uma roupa e sai, tem gente que acorda super cedo e tem todo um ritual de manhã, e tem tempo de acordar meia hora antes e dar uma atenção à sua planta. Você tem que entender sua rotina, como a planta vai se encaixar nela e quanta água sua planta vai demandar para você começar a entender e observar aquele ser crescendo no seu espaço."

"Entenda seu espaço, sua demanda de tempo e escolha sua planta a partir disso, e não porque você viu no Pinterest e amou."

Lincon Catto

Vale levar em conta também se você viaja muito, se vai ter com quem deixar sua chave para que molhem suas plantas, e daí por diante: "Se você viaja muito tem que pensar em plantas que têm baixa manutenção de água - uma vez por semana, a cada quinze dias..." Uma boa diretriz aqui é pensar que você está tentando replicar, dentro do seu apartamento, tudo o que uma planta teria em seu habitat natural.

Onde colocar sua planta

Outro fator a se levar em conta quando você pensa em uma planta para o seu apartamento é onde colocá-la: "Lembra de quando diziam que não podia de jeito nenhum ter planta no quarto, pois ela faria fotossíntese à noite e ia matar a pessoa? Não tem nada a ver", diz Lincon.

Por outro lado, a cozinha pode ser um lugar bem complicado de se ter uma planta, por demandar mais manutenção: "Plantas respiram pelas folhas, que têm uma superfície porosa, e às vezes as pessoas não se tocam que precisam limpar todas as folhas, ou a planta vai morrer", ele conta.

Mas e se a planta morrer?

Quando a gente tem planta em casa, precisa se desapegar da culpa quando ela morrer: "Senão você vai viver eternamente naquele clichê de que nenhuma planta sobrevive na sua mão, e vira aquele sofrimento que pode ser evitado", diz Lincon. "A gente tem que entender que elas têm seu ciclo, e como tudo na vida, que elas podem morrer. Às vezes não é você que não tem o dedo verde, é o seu espaço que não é adequado, ou algum outro lance interferiu".

Um adendo tão importante: a nossa sensibilidade

Foto: Lincon Catto (@el.catto)

Conversar com Lincon sobre plantas é ouvir falar muito na nossa sensibilidade, no nosso senso de percepção do que acontece além do nosso próprio umbigo. Ter planta, afinal, é um exercício diário e constante disso.

"A gente não para mais para observar mais nada ao nosso redor", ele afirma. "Se você parar para observar agora, dentro da sua casa, tudo o que ao seu redor - até sua roupa - é feito de planta. A madeira da mesa, da porta, o tecido de algodão, as plantas que você come.... Muitas coisas são feitas de planta, mas as pessoas não observam isso".

Para ele, o ser humano foi perdendo o dom de observar o seu entorno com o passar do tempo, doutrinado sempre à competir: "É uma sociedade em que tudo é material, e isso é muito triste. Vou mais longe: na pré-história a mulher não só era encarregada de encontrar os alimentos e as coisas boas para sua família comer, ela tinha também o tom de saber muitas coisas sobre plantas medicinais. O 'macho' era encarregado de se colocar como o que protegia, competia e matava. Como a gente sabe, todos nós somos feitos do masculino e feminino, temos os dois lados, mas fomos doutrinados a aflorar o nosso lado masculino. Por isso fomos educados a sermos competititivos, a não observar... As pessoas perderam a sensibilidade".

Após mergulhar neste lado tão mais filosófico e profundo do nosso relacionamento com plantas, Lincon é acertivo: "É impossível ter uma planta se você não buscar prestar atenção ao seu redor. Agora na quarentena mesmo, todo mundo foi obrigado a olhar para si mesmo e entender que sua casa tem que ser uma coisa pensada, um lugar interessante, e que isso só depende de você. Mas antes a gente só vivia na função de estar fora de casa".

E aí, vamos começar? Abaixo, Lincon finaliza com uma lista de plantas de baixa manutenção, se você tem boas condições em seu apartamento para abrigá-las:

  • zamioculca
  • espada-de-são-jorge
  • jiboia
  • antúrio
  • cacto
  • suculenta
  • palmeira-ráfia

Já está no nível fada das plantas? Abaixo, ele lista suas dicas:

  • samambaia
  • begônia
  • veludo roxo
  • caladium
  • helicônia (bananeira hornamental)

vamos conversar?

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