Urgências, sexualidade e fuso horários diferentes

Nick Nagari fala sobre expectativas que nós e os outros criam para nós mesmos e como é tentar se libertar disso.

Por: Nick Nagari (@nicknagari)

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Já dizia o ditado: a grama do vizinho sempre parece mais verde que a nossa. Ao olhar para os lados, geralmente tem aquele primo que passou num concurso, aquela amiga que formou uma família digna de comercial de margarina, aquele conhecido que sempre viaja para fora do país… É fácil encontrarmos uma ou outra pessoa (ou várias) cuja vida parece andar num ritmo melhor que o nosso.

No sistema em que vivemos, somos incentivados a isso. Não é bem visto ser apenas regular: você tem que almejar ser mais bem sucedido que a média. E, com o advento das redes sociais nos dando acesso a detalhes da vida de quem nem conhecemos, parece impossível se desvencilhar dessa prática.

Eu estou naquela fase no meio dos “vinte e poucos” e os “vinte e tantos”, caracterizada por cada pessoa estar vivendo algo completamente diferente, ainda mais com os efeitos de uma pandemia no meio do caminho. Tenho amigos se formando na faculdade, amigos que estão entrando agora, quem quer ter filhos daqui dez anos e quem já tem dois, quem está estagiando e quem já passou por três empresas… Mas uma coisa que todas essas pessoas me parecem ter em comum é a urgência de conquistar todos os seus objetivos para ontem.

Esse tema ocupa meus pensamentos (e minha terapia) com frequência, porque mudei de área recentemente: estudava e trabalhava com Matemática e hoje sou influenciador digital no campo de gênero e sexualidade; pretendo cursar Ciências Sociais ano que vem para seguir trabalhando com isso. Eu já falava desses assuntos antes, mas foi uma reviravolta decidir estudar eles dentro do ambiente acadêmico e sair da carreira que estava construindo. Ouvi muito um “poxa, mas você vai entrar numa faculdade aos 25 anos, do zero???” e o clássico “Eu não conseguiria…”.

E bem, por um tempo achei que não conseguiria mesmo, ainda mais quando vi a galera que entrou comigo na faculdade pegando o diploma. Passei boa parte da vida me comparando com os outros, e dessa vez não ia ser diferente. A grande virada de chave foi perceber que eu estava sempre tentando equiparar meu percurso com o de pessoas que tinham outras vivências. As das revistas adolescentes dos anos 2000, dos contos de fadas e das clássicas comédias românticas — nenhum desses tinha gente como eu. Cresci vendo um mundo fictício onde só existiam pessoas brancas, classe média, magras e cis hétero. E caramba, como é ruim crescer sem referência, viu?

Depois que tive contato com essa reflexão, entendi que o meu parâmetro nunca deveria ser igual ao dessas outras pessoas, porque partimos de lugares diferentes, e isso me afeta concretamente. Por exemplo, como vim de uma família cristã, minha prioridade sempre foi ter independência financeira, porque enquanto pessoa LGBT eu considerava que só a partir disso teria possibilidade de ser quem eu sou (sem que a garantia de casa e comida fosse ameaçada).

Até pouco tempo, eu não percebia como isso impactava e era impactado pelos outros campos da minha vida. Que, ao invés do diploma, eu prefiro que a minha maior conquista com 25 anos tenha sido viver livre, algo que geralmente não é possível para pessoas como eu e que batalhei muito para conseguir. É como se eu estivesse a vida toda em um fuso horário diferente dos que conhecia e só tivesse percebido agora.

Acontece em outros âmbitos também: me sinto muito mais confiante de me relacionar, interagir com pessoas e ir à festas agora que já atingi uma plenitude em relação a minha bissexualidade e a minha transgeneridade. Antes era tudo nebuloso, já que não sabia como querer que as pessoas gostassem de mim se nem eu gostava e entendia direito o que estava acontecendo. Junta isso com os efeitos de ser negro então… um amigo brinca que estou em uma “adolescência tardia”, porque só agora vivo momentos que as pessoas que a gente convive viveram aos 16 anos.

Uma vez eu vi um tweet (de um cara gay) falando que os 35 anos são bem melhores que os 25, porque você se sente muito mais seguro de quem é. E sendo LGBT, só isso já parece tanto! Passamos tanto tempo correndo atrás dessa segurança que saber que ela muitas vezes chega com a idade é reconfortante. É, nossa vida realmente funciona em outro fuso.

Eu poderia falar aqui de como isso também se aplica à pessoas negras, gordas ou qualquer grupo minoritário, mas seguindo essa linha de raciocínio, dá para estender para qualquer pessoa, já que todo mundo tem suas questões, seus impedimentos, suas prioridades, de acordo com suas condições de vida e a forma que escolhe para lidar com elas.

No final das contas, a gente precisa focar no nosso caminho, nos nossos objetivos, sem se sentir “atrasado” em relação a alguém, porque esse alguém tem uma vida diferente da nossa. Talvez a grama do vizinho seja sintética e a gente está aí, a vida toda tentando fazer a nossa ficar brilhante igual a ela. Se você aceita um conselho, o meu seria:  pessoas diferentes têm fusos horários diferentes. Encontre e siga o seu.

vamos conversar?

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