#vivasuapele: Igor Martins

Vem conhecer Igor Martins (e de quebra Agatha Power), que vai te ensinar todo o poder de ser drag queen!

Já imaginou um dia chuvoso, daqueles em que você tá meio pra baixo, e numa conversa marcada no Zoom dá de cara com essa maravilhosidade, assim, dando close de graça na câmera? Não tem baixo astral ou preguiça que resista: Igor Martins é inspiração absoluta.

Igor participou da primeira parada da nossa Turnê Sallve, que começou esta semana no Acre, e aqui conta como é ser drag no extremo Norte do país e por que se encontrou nesse universo. É pra ler, se apaixonar e seguir já lá no Instagram.

Nossa conversa começa berrando sua personalidade: acreane de 33 anos, Igor mostra desenhadinho o que é se maquiar para si mesmo e mais ninguém, mesmo durante a quarentena: "Porque sou influenciador digital, produzo conteúdo de maquiagem e beleza, arte (afinal de contas drag também é arte) e porque para mim maquiagem e skincare são uma terapia", conta.

"Me vestir e me maquiar é um ato político"

Igor Martins

Não só Igor gosta de se vestir e se maquiar para si mesmo, ele vê as duas coisas como um ato político: "Moro no interior da Amazônia, no extremo Norte do país, onde ainda temos uma sociedade conservadora, muito cheia de preconceito, então me vestir e me maquiar dessa forma também é uma forma de ser político. Ser eu - uma pessoa não-binária, queer e drag queen - é um ato político", ele explica. "Porém, antes de mais nada - até mesmo de ser um ato político -, eu gosto de me vestir para mim. Gosto de me sentir bem, bonite. Faço isso para me olhar no espelho e falar: Estou bem montade, estou belíssime."

Ser drag queen no Acre

Igor conta que a cena drag no Acre ainda é muito invisível: "Agora imagina por ela ser ligada a uma sigla que já é invisibilizada, no extremo Norte do país? É uma luta diária, uma transgressão diária. Quantas vezes não escutei 'Tem que apanhar para virar homem'? Infelizmente a gente ainda vê e ouve coisas assim, e dá uma tristeza perceber que a sociedade ainda pensa dessa maneira. Principalmente porque a arte drag é abraçada pela comunidade LGBT, mas conheço pessoas hétero que fazem drag. Mas ao mesmo tempo, tem vezes que a gente não precisa nem abrir a boca porque tem outras pessoas que vão lá e nos defendem, que dizem o quanto somos inspiradores. E nem são pessoas LGBT. Temos as dores e as delícias de sermos quem somos, mas infelizmente tem horas que a gente enfraquece. Somos seres humanos, né? Mas a gente levanta e continua."

"Nascer LGBT é nascer com espírito lutador. Você tem que lutar o tempo inteiro para conquistar seu espaço e não ser invisibilizado."

Igor Martins

"Infelizmente aqui a gente não vê o incentivo das pessoas, não é impulsionado para que outras pessoas te vejam, e dá vontade de desistir de tudo, de ir embora do Acre. Todo mundo diz que tenho muito mais possibilidade em outro lugar, porque sou muito talentose. Mas enquanto estou aqui minha missão é trazer transgressão, é para plantar sementes", manda avisar.

A beleza do drag

Ouvir Igor falar sobre o drag é ter noção do tamanho da potência dessa arte, uma ferramenta de expressão tão maravilhosa. Ele afirma que foi o drag, no qual ele mergulhou há cinco anos, que permitiu com que ele se enxergasse por inteiro: "Não sabia que era queer até fazer drag."

Esta jornada começou há cerca de seis anos, quando Igor comprou suas primeiras perucas, das quais ele lembra com bom humor: "Olha, era uma peruca na cabeça e a confiança que tava bonita, porque vou te contar, tava feio! Eu não sabia fazer um contorno e qualquer farinha de trigo poderia me patrocinar naquele momento, porque a cara era branca sem um contorno!"

Outra dificuldade de ser drag no Acre é a distância das "mães drags" - aquelas que vão te ensinar a se maquiar, a usar acessórios e daí por diante. Igor, porém, encontrou a sua: "É o YouTube. Eu não conheço nenhuma drag queen aqui no Acre (vai ver elas estão escondidas em seus quartos como eu estive um dia), mas onde eu ia aprender tudo o que aprendi? Minha escola foi o YouTube, me montando dentro do quarto."

Essa vida dupla, de só se montar dentro do quarto e gradativamente começar a frequentar festas tomando sempre o cuidado de não ser registrado, acabou uns quatro anos atrás, quando ele se assumiu para sua mãe: "Pelo Whatsapp, porque eu não tinha coragem!", relembra, às gargalhadas.

"Independente de você saber ou conhecer as letras dentro da sigla, identidade de gênero ou sexualidade, você acima de qualquer coisa tem obrigação de respeitar as pessoas como elas são. É o fator primordial para você viver em comunidade com pessoas diferentes de você."

Igor Martins

Agatha Power, sua drag queen (batizada por essa música aqui, pra você amar ainda mais), também é militante, claro: "Ela não só milita pela causa LGBT como também pela causa das mulheres. Por que as mulheres precisam ser rechaçadas pelas roupas que elas usam?"

Igor conta que nasceu nos anos 80 e cresceu vendo e admirando outros ícones transformistas, como Léo Áquila, mesmo sem entender muito bem do que se tratava: "Arrisco a dizer que me identifico como uma pessoa queer mas não sei se lá atrás, se eu tivesse toda a informação que tenho hoje sobre transsexualidade, talvez eu tivesse me visto como uma pessoa trans. Mas me sinto confortável sendo queer: tenho problemas de saúde, não poderia tomar hormônios."

Mais recentemente, o que reacendeu sua chama foi "RuPaul's Drag Race": "Foi quando comprei minhas primeiras perucas. É indescritível o poder que você sente quando coloca a peruca na cabeça e constrói sua persona", ele diz, com um sorriso no rosto e a maquiagem impecável. "Minha drag me completou como ser humano. Ela é tudo que eu nunca fui na minha infância. Quando era criança, ouvia que nunca poderia ser bonito porque era gordo, preto e da periferia. Minha drag veio para me trazer força e confiança."

Igor, definitivamente:

vamos conversar?

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