Qual parte de férias você não entendeu?

Máqui Nóbrega chega pregando a palavra da salvação: a gente precisa de férias sim!

Por: Máqui Nóbrega (@maqui.nobrega)

No final de 2020, eu tive uma crise de enxaqueca que durou uma semana. Obviamente, achei que estava com Covid-19, fiz o teste, deu negativo e então comecei a investigar o que poderia ser. Consultas com otorrino, gastro, tomografia, exame de sangue e…nada!

Aí me dei conta de que estava trabalhando direto há quase dois anos sem tirar férias. Nada demais, né? Tem gente que trabalha três, quatro, cinco, dez anos sem tirar nem folga. Eu mesma já fui essa pessoa, na minha época de designer freelancer. Mas não é normal não!

Naquele momento eu não podia parar de trabalhar, mas resolvi pelo menos largar o celular e o computador por três dias, pra ver se melhorava. Sexta, sábado e domingo offline e a dor de cabeça passou. E aí, bom... eu voltei a trabalhar, né?

Meses depois, juntando a pandemia com o resto da vida, me encontrei 100% esgotada mentalmente. Eu não tinha mais prazer ou vontade de fazer nada, ficava irritada com tudo, não aguentava mais responder emails, e a cada notificação do Whatsapp a vontade era de jogar o celular dentro da privada. Mas pra mim, o pior foi perceber que eu estava odiando o meu trabalho. Cara, meu trampo, que eu construí do zero junto com a Karol, minha sócia, em que somos nossas próprias chefes e podemos fazer o que/como/quando a gente quiser, um trampo que eu amo…eu não podia deixar esse sentimento estragar tudo!

Então eu propus pra Karol que fizéssemos algo inédito: tirar 20 dias de férias ao mesmo tempo, nós duas. E ela me propôs algo de volta: sumir das redes sociais, não postar nada, ficar offline. Sério, no dia em que decidimos isso, foi como se a remessa de um novo ar, um ar que eu nunca tinha respirado antes, entrasse dentro de mim (haha!). Eu fiquei MUITO feliz. Voltei a render no trabalho porque sabia que, em pouco tempo, conseguiria descansar. Alguns colegas de profissão acharam ousado demais não postar por 20 dias. O que o algoritmo faria com a gente? Olha, qualquer coisa que um robô pudesse fazer não seria pior do que o que eu já estava sentindo, então…

Decidi comprar um celular usado antiguinho pra usar durante as férias, porque eu sabia que as mensagens no Whatsapp continuariam chegando, independente de eu avisar que não estava trabalhando. Eu não queria nem pensar em ter que digitar um “estou de férias, depois respondo”. Eu queria sumir mesmo! E foi o que eu fiz. Programamos um aviso de férias no email, desativei meu Whatsapp de sempre, passei o número “novo” pra tipo oito pessoas e pronto.

Foram quase 20 dias sem conversar sobre trabalho, sem ler emails, sem acordar sentindo que estava devendo uma resposta ou um post pra alguém. Quase 20 porque, lá pelo décimo quinto dia, fiquei sabendo que uma marca com quem a gente trabalha (e que havia sido avisada antes das nossas férias) estava brava porque precisavam de um arquivo que eu só mandaria quando voltasse das férias.

Quando voltei ao meu celular normal, a maioria das mensagens sobre trabalho começava com “sei que você está de férias, mas…” seguida de um pedido que, obviamente, interromperia meu descanso. Minha vontade era responder “qual parte da palavra FÉRIAS vocês não entenderam?”. Foi tão difícil e demorado chegar à conclusão de que esses dias de folga eram necessários e eu levei eles tão a sério, que uma mera mensagem sobre um possível problema de trabalho me deixou putíssima. Eu tive que resetar e voltar pro modo férias à força, antes que “perdesse” todo o descanso que tinha conseguido até ali. Faz sentido? Haha!

Não foi exatamente uma surpresa me deparar com essas mensagens e pedidos, mas porram, por que não trabalhar por alguns dias virou um conceito tão esquisito pras pessoas? E, viu, não estou falando de quem não pode tirar férias porque não tem um emprego e, se tirar, não vai ter dinheiro pra comer. Esse é um outro assunto que renderia milhares de textos, mas agora estou falando pra quem trampa, é PJ, CLT e mesmo assim não consegue pausar o corpo e a mente de verdade.

Em 2020, eu enrolei muito e acabei não tirando esses dias porque pensei que seria um desperdício gastar minhas férias pra ficar dentro de casa. Mas não foi. Mudou um pouco a relação com o meu apartamento, que tinha se tornado um lugar de muitas faltas e pouca beleza. Eu montei Legos, acordei sem despertador, fiz aula de cerâmica online, assisti a tudo que eu queria, cochilei, fiquei algumas horas olhando pro nada e pensando em tudo. Eu consegui relaxar em casa de novo.

Ok, não foi uma viagem literal, mas com certeza foi uma viagem pra resgatar algo que eu achava que havia perdido: o simples prazer de estar “bem”. Entre aspas mesmo, pois bem sem aspas pouca gente está e eu definitivamente não sou uma dessas pessoas! haha

Sei que rola insegurança (financeira, emocional, qualquer uma), medo e vários outros sentimentos ruins que impedem a gente de largar de verdade o trabalho, mas não é a toa que tirar férias é um direito de todo trabalhador. O cérebro precisa descansar pra funcionar direito, é ciência, é fato! Então esse texto é um incentivo pra você pausar. Se não rolar parar de trabalhar total, que seja só uma pausa das redes sociais ou de responder emails depois das 20h.

Não espere perder o prazer nas coisas pra só então tentar recuperar. Não siga o meu exemplo!

vamos conversar?

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