Zannandra Fernandez: "Cadeira de rodas é liberdade"

Zannandra Fernandes conta como se sente livre no seu corpo e expande seu olhar para bem além de ideias antigas sobre a cadeira de rodas: "ela é liberdade".

zannandra fernandes

Cada corpo se movimenta de uma forma. Não importa qual seja ela, uma coisa é inegociável: seus movimentos devem ser completamente livres. É incrível, aliás, falar de corpo e liberdade: são conceitos que variam de uma pessoa para a outra, que dependem igualmente de vivências e de vontades.

A Zannandra Fernandez, criadora de conteúdo e modelo, entra nessa conversa para expandir ainda mais essa conversa: "Conhecer meu corpo, me conhecer e conhecer mais corpos como o meu realmente foi algo que me deu essa liberdade de mudar meu conceito de liberdade e adaptar ele para mim", ela conta em uma conversa incrível, que reforça a ideia de que a liberdade, tantas vezes, está na força da comunidade.

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"Minha jornada com meu corpo não é nem um pouco estável ou constante. Desde muito novinha eu sempre passei por altos e baixos em relação a como eu via meu corpo, principalmente por conta das referências que a gente tem na mídia. Então, foi desde muito novinha que fiquei muito complexada com meu corpo", lembra a cuiabana de 19 anos. "Por ter distrofia muscular, eu sempre tomei medicamentos muito fortes desde muito cedo, e um dos efeitos colaterais deles foi na minha pele. Tanto que a pele do meu braço sempre foi mais grossa e áspera, então essa sempre foi uma insegurança minha - mesmo que as pessoas não entendam. Até hoje carrego um pouco desse complexo, mas atualmente entendo isso como parte de mim".

Zannandra também já foi de ficar insegura com a forma do seu corpo: "Por conta da minha deficiência, sou extremamente magra, porque tenho muita fraqueza muscular. Isso sempre me deixou insegura. E muita gente não consegue entender que uma pessoa magra pode sim sentir insegurança por ser magra demais. Por entender que vivemos em uma sociedade gordofóbica, eu mesma invalidei essa insegurança em mim".

E aí, se enxergar e se libertar

Ela consegue apontar exatamente o momento em que o jogo virou: "Ao me reconhecer como uma pessoa com deficiência, comecei a entender mais sobre meu corpo e a pressão estética no geral. Nesse processo, percebi que minha insegurança era muito válida, e que meu corpo magro não é dentro do padrão. Ele é um corpo magro de uma pessoa com deficiência. Foi aí que comecei a me entender mais e gostar mais do meu corpo - porque ele é meu. E eu sou uma pessoa com deficiência. Isso foi libertador para mim. Eu comecei a me aceitar mais e valorizar meu corpo do jeito que ele é. Hoje em dia eu adoro ele", conta.

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E também pertencer

Outro fator crucial que mudou totalmente seu conceito de liberdade foi ter mais contato com as pautas de pessoas com deficiência: "Conhecer meu corpo, me conhecer e conhecer mais corpos como o meu realmente foram coisas que me fizeram adaptar esse conceito de liberdade e adaptar para mim", segue.

Um dos exemplos: as próprias assaduras. "Elas são muito comuns entre cadeirantes. Ficamos sentados, então temos uma sensibilidade maior entre as pernas, nas coxas, no bumbum... Só que eu nunca senti liberdade para falar sobre isso. Conhecendo mulheres com deficiência, me senti mais a vontade para falar sobre isso, procurar produtos que me ajudassem e cuidar do meu corpo como ele deveria ser cuidado. Foi libertador pra mim me conhecer e conhecer outras mulheres como eu".

O resultado? Incrível: Comecei a usar roupas que me deixassem mais livre, com movimento, mais confortáveis. A moda ainda não é muito acessível, então me manter na moda, me sentir atual, sempre me deixava desconfortável, porque nada era adaptado para mim, então eu não tinha movimento. E se antes eu ficava com vergonha de usar um shortinho curto por ter as pernas finas, hoje uso numa boa".

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Cadeira de rodas é liberdade

No meio do bate-papo, Zannandra relembra um momento recente que a marcou muito: ouvir, durante a transmissão de encerramento das Paraolimpíadas de Tóquio, o próprio narrador citar a história de um dos atletas e afirmar que ele havia "ficado preso na cadeira de rodas até certa idade": "Aquilo ali mexeu muito comigo. Não só por alguém falar que uma cadeira de rodas é uma prisão, mas mais ainda, por falar isso na transmissão de um evento como as Paralimpíadas". Ela diz ter certeza que o jornalista em questão recebeu instruções sobre como evitar um tom capacitista, mas a estrutura social que valida a cadeira de rodas como algo ruim é maior: "A gente pode ter todo o conhecimento do mundo, e ainda fica condicionado àqueles ideais que somos ensinados desde pequenos - que uma cadeira de rodas é sinônimo de derrota. E para mim sempre foi o contrário: cadeira de rodas é liberdade".

Zannandra conta que não nasceu cadeirante, mas sim com deficência, e andar sempre foi algo que a deixava insegura: "Eu não tinha segurança pra andar, andava de maneira instável, tinha os tendões encurtados e fraqueza muscular, então andar para mim era péssimo. Quando me tornei cadeirante oficialmente e comecei a me locomover com a minha cadeira de rodas, pensei: nossa, então é assim que é se movimentar com segurança?"

A relação da Zannandra com a cadeira de rodas dela é tão íntima e incrível que ela combina suas roupas e até seu perfume com ela: "A cadeira de rodas é uma parte do meu corpo, da minha personalidade. Outro dia mesmo me questionaram se eu tinha vontade de voltar a andar, e eu sempre respondo que não me vejo andando. Minha cadeira de rodas é parte de mim. Ela tem que estar casando com minhas roupas, meu cheiro... Eu não consigo sentir que ela é algo que me aprisiona, que me limita. Ela para mim é o oposto disso, sempre me senti assim. E conversar com outras mulheres com deficiência só reafirmou isso em mim. As coisas negativas de ser cadeirante são externas, fruto da insensibilidade das pessoas, não tem nada a ver com a gente, e sim com a sociedade. Não só arquitetonicamente, mas falando das pessoas mesmo. Eu espero que isso vá mudando porque cadeira de rodas tá longe de ser algo que nos limita", ela encerra a conversa enquanto abre novos pontos de vista.

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